Em 1934, a DC começava a mudar o cenário dos quadrinhos. Poucos anos depois, em 1939, foi a vez da Marvel fazer sua parte. Grandes heróis e vilões surgiram ao longo do tempo e mexeram com o imaginário de crianças e adultos. Com seus super-poderes, alguns combatiam o crime, enquanto outros praticavam.

A palavra em inglês “marvel” significa maravilha, espanto, admiração. Seja o Capitão América, o Homem de Ferro, o Homem-Aranha, o Hulk, o Quarteto Fantástico, os X-Men, o que for, eles se tornaram as maravilhas do mundo que habitavam e de nosso mundo por meio dos quadrinhos.

Marvels

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Décadas depois, em 1994, com o mundo já mudado e os quadrinhos se adaptando ao longo desse período, a minissérie Marvels foi lançada. Com roteiro de Kurt Busiek, arte de Alex Ross e edição de Marcus McLaurin, a saga contou com quatro edições principais e, posteriormente, um prelúdio, sendo muito bem recebido, vencendo algumas premiações, incluindo três Eisner (o Oscar dos quadrinhos) de melhor minissérie, melhor pintura e melhor design de publicação, além de ter concorrido a melhor artista de capa e melhor edição pelo segundo volume.

A trama conta a história do fotojornalista Philip Sheldon (ou Phil, para os mais íntimos), que testemunhou, no final dos anos 30, o surgimento do que ele chamaria de “maravilhas”. Ele então passa a fotografar essas novas “criaturas” e a buscar mais informações sobre elas. O tempo passa e cada vez mais “maravilhas” começam a surgir, o que o leva, nos anos 60, a criar um livro com as fotografias que ele tirou, mas apenas dos heróis, numa tentativa de trazer esperança para o mundo.

O ótimo enredo e a arte realista ajudam bastante no clima da história. Durante as edições acompanhamos os surgimentos do Tocha-Humana original, do Namor, do Quarteto Fantástico, dos Vingadores, dos X-Men, entre outros. Nisso, vemos como as pessoas reagem a eles, como é a interação entre todos e por aí vai. Alguns são bem aceitos, outros nem um pouco, levando a revoltas populares e a uma envolvente indagação sobre o papel dos super-poderosos em meio aos cidadãos. É tudo o que a Marvel lançou ao longo dos anos reunido em uma só história pelo ponto de vista de um ser humano “comum”.

Ruínas – O Fim do Universo Marvel

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Sheldon acabou sendo reutilizado em algumas histórias posteriores, incluindo, em 1995, a polêmica saga Ruínas, com roteiro de Warren Ellis e arte de Terese e Cliff Nielsen. A trama se passa num distópico universo paralelo onde tudo deu errado.

Em duas edições, acompanhamos Philip investigando como o mundo se tornou o que era. Os Vingadores eram um grupo radical e foram exterminados. Os Kree vivem num campo de concentração. Diversos heróis estão mortos. O que era para ser o começo das “maravilhas”, foi o começo do pesadelo. A arte borrada acaba por criar um ambiente assustador. Uma série depressiva e sem esperança.

Marvels: Olho da Câmera

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Mais de uma década depois surgiu a continuação direta de Marvels. Lançada em 2008, com o retorno de Kurt Busiek no roteiro (com participação de Roger Stern), além da arte de Jay Anacleto, a mini de seis edições decidiu encerrar a saga de Philip Sheldon.

A trama acompanha o fotojornalista dois anos depois do último evento narrado na primeira saga. Confrontado com uma doença em estágio avançado, Philip se vê determinado a lançar um novo livro de fotos sobre as “maravilhas” antes que seja tarde demais. O problema é que o mundo continua a mudar e passa a adentrar um período sombrio.

Servindo como um oposto ao original, em vez do clima esperançoso de um mundo melhor, temos um clima mais para baixo. O protagonista passa a se indagar sobre tudo o que fez em sua vida, enquanto sua obra parece cada vez mais distante de sua realidade atual. O Capitão América sendo preso, os Vingadores ruindo, heróis e vilões trocando de lugar. É um outro lado do outro lado, uma reflexão que ironiza a própria Marvel e nosso gosto por quadrinhos. Sheldon, enquanto cada vez mais debilitado fica, mais percebe que o mundo continua o mesmo sem ele, buscando então algo para se agarrar, na esperança de que tudo volte a melhorar.

Veredito

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Marvels é maravilhoso, com perdão do trocadilho. Talvez o roteiro mais genial já escrito na editora, englobando décadas de história por outra visão. A narrativa poética e os desenhos com toque realista são profundos. Obrigatório para qualquer um que goste de super-heróis.

Já Ruínas é um assunto complicado. A arte “feia” divisora de opiniões pode afastar muita gente, já que seu teor, adicionado ao que é desenvolvido ao longo da história, busca impactar o leitor. Mas, por trás disso, há um sentido. É uma HQ diferente e que deve ser apreciada como tal. Por se passar num universo paralelo, acaba por se tornar algo opcional.

E, enfim, temos Olho da Câmera, a real continuação de Marvels. Apesar de resgatar o clima do original, não temos apenas mais do mesmo, mas sim um outro lado das coisas. Entendo que isso possa causar algumas controvérsias para alguns devido ao rumo que a história segue, mas ela remete muito bem a nossa realidade e a questão do que queremos consumir nos quadrinhos.

Marvels e sua continuação são altamente recomendáveis. Ruínas, por sua vez, apenas para quem tiver curiosidade. O que senti após ler tudo isso foi de que gostaria muito que a Marvel adaptasse as tramas para um longa (me referindo as duas séries principais).

Um filme com atores seria ótimo, mas nos cinemas só daria certo se fosse um filme sem ligação com o UCM ou um filme que servisse de reboot para a franquia (agora que a Disney comprou a Fox ficaria mais fácil). Entretanto, uma animação também seria válida. O potencial que possui é absurdo e creio que deveriam aproveitar, mostrando desde o surgimento das maravilhas até a noção de que o mundo continuará mudando a todo momento.