Tomb Raider: A Origem | Crítica

Um bom filme de sobrevivência na selva semi-genérico baseado num aclamado jogo.

Tomb Raider possui seu legado e isso pesa no resultado. Adaptar um jogo baseado em exploração e sobrevivência pode dar muito certo ou muito errado. Deixar uma marca é que é o problema, visto que pode se tornar qualquer coisa.

Tendo estreado em 1996 nos videogames, a exploradora Lara Croft fez enorme sucesso, entrando para o Livro dos Recordes em 2006 como a aventureira heroína mais bem sucedida do mundo dos games.

A que se deve essa fama? Seus ótimos jogos? Também, mas sabemos que não era apenas isso. Uma das características que tornava Lara reconhecida era um aspecto peculiar: seus seios avantajados. Uma grande bobeira para os dias de hoje, os polígonos esticados faziam marmanjos babarem antigamente. Pois é. Ver para crer.

Em meio a essa leva de jogos, a franquia recebeu duas adaptações duvidosas com a bela Angelina Jolie, uma em 2001 e outra em 2003. A primeira chegou a se tornar na época a adaptação de jogo mais lucrativa do cinema.

Como novos tempos requerem novas medidas, em 2013, em seu décimo jogo, a franquia sofreu um reboot que mudaria tudo. Eis que Tomb Raider se tornou um jogo de sobrevivência, trazendo uma Lara remodelada, mais jovem, humana, realista, natural.  Foi sucesso de crítica e público e não demorou para receber continuação. Agora, em 2018, foi lançada a adaptação.

Não cheguei a jogar o jogo, porém, de acordo com os gamers que tive contato, o filme ficou fiel ao jogo (salvo momentos), o que acabou por dividir opiniões, como aqueles que disseram preferir “jogar novamente” em vez de “ver um resumo” (o que chega a ser irônico, visto que o público gamer é impossível de se agradar no cinema, reclamando quando um filme não é fiel ao jogo, mas também quando um filme é fiel). Prosseguimos.

A nova Lara Croft

A trama inicia com Lara Croft (Alicia Vikander) em Londres, dividindo seu tempo entre trabalho de entregadora e treinos de boxe. Seu pai, Richard Croft (Dominic West), está desaparecido faz sete anos e ela recusa a assumir seu lugar em sua empresa. Ao descobrir seus segredos, ela parte em busca da ilha que foi seu último ponto de partida. Para ir até lá, ela recebe a ajuda de Lu Ren (Daniel Wu), filho do cargueiro que levou o pai de Lara para o local.

Todo o primeiro momento do longa se diferencia dos demais, possuindo um clima urbano e mais aberto a desenvolver o perfil de Lara, embora não tenha muito o que mostrar. Não que sejam os minutos mais fracos do longa, mas são os trechos menos empolgantes. Apenas quando Lara embarca é que o gancho para a aventura começa.

É na ilha que conhecemos o vilão da trama, Mathias Vogel (Walton Goggins), um homem misterioso que já havia trabalhado com Dominic no passado. Ele logo aprisiona Lara e é aqui que o foco do filme se inicia. A partir desse momento, o longa se torna parte sobrevivência e parte exploração. Há espaço na trama para os dois lados da personagem.

A linha narrativa prossegue como um filme de diversos acontecimentos onde uma coisa vai levando a outra. Afim de evitar spoilers, não entrarei em detalhes. É uma trama simples e objetiva de fácil agrado.

Alicia Vikander está perfeita na personagem. Bons momentos para perceber isso são nas poucas, porém marcantes, cenas em que ela está sozinha na selva. A empolgante cena do avião e a cena noturna de tirar o fôlego deixam isso claro.

Como o subtítulo sugere, aqui vemos a origem da personagem. Antes de começar a usar suas pistolas e afins, antes de ter recursos para armamentos e tecnologias, temos uma guerreira com arco e flecha no mais puro instinto de sobrevivência e nada mais. Fantástico.

Tempo

Infelizmente o filme sofre com tempo. Como disse lá na parte sobre a opinião dos gamers sobre “jogar novamente” em vez de “ver um resumo”, o filme realmente parece um resumo. Como também deixei levemente a entender na parte das “poucas, porém marcantes” cenas de Lara sozinha na selva, tudo parece muito curto.

De certa forma, o filme é realmente um resumo do jogo, mas não deram tempo suficiente para explorar esse universo. Claro que isso se deve ao fato dos limites de duração de um longa. Fica a sensação de que estão indo rápido demais com os acontecimentos. Por um lado isso é bom, evitando o longa de cair na enrolação, mas por outro impede o longa de aproveitar seu material como deveria.

Senti falta de mais cenas de sobrevivência e de exploração de Lara, mais cenas dela vagando pela floresta e por cavernas, mais cenas dela resolvendo puzzles, etc. Na verdade tudo isso é tão reduzido no filme que colocam uma ou duas cenas de algo só para dizer que tem. Mas novamente repito: Isso é mais culpa do formato do que do roteiro.

Tomb Raider funcionaria melhor como uma série do que no cinema, dando mais tempo para desenvolver o universo apresentado. E para os gamers que reclamassem que desse jeito seria literalmente melhor jogar o jogo novamente, digo que muitos veem gameplays, então seria meio que ver uma gameplay, só que regravada como série.

Genérico

Algumas reviravoltas previsíveis ocorrem na trama. Aliás, soube que para quem jogou o jogo pode ser surpresa por mudarem alguns acontecimentos, o que ao meu ver não deu certo, deixando algo totalmente genérico. Não que isso negative a trama. O fato de algo ser genérico não necessariamente torna esse algo ruim, apenas deixa de torna-lo marcante.

O filme é o que é (óbvio). Como dito anteriormente, adaptar um jogo de sobrevivência é complicado e pode se tornar vago. Tomb Raider mostra uma mulher em meio a uma selva lutando para sobreviver. O que a torna especial? É como adaptar um jogo de guerra ou um jogo de corrida. É necessário que a essência do jogo, que o que torna o jogo único e diferente dos demais, esteja ali no filme. Tomb Raider… provavelmente consegue.

Vamos ao ponto: A história é sobre uma mulher que está tentando sobreviver em meio aos perigos da selva enquanto é perseguida por um grupo armado que está atrás de algo que seu pai procurava. O fato de ser uma mulher já é um enorme diferencial, ainda mais em meio a tantos filmes de sobrevivência com homens. O fato dela não ser um sex symbol, assim como sua antiga versão, também é um diferencial. No mais, Tomb Raider é o que é (obviedade novamente). Uma boa história e respeito ao público é tudo o que importa. Aceite e seja feliz.

Futuro

Em tempos de politicamente correto e também de busca pela representação feminina como deveria, a franquia consegue agradar boa parte dos públicos, o que deve ser levado em conta. Entre erros e acertos, a adaptação pode até deixar a desejar em alguns quesitos, mas seu saldo final ainda é positivo.

Apesar de estar dividindo opiniões com seu filme, assim como aconteceu com sua antiga versão, resta esperar para saber se a franquia ainda conseguirá ser um sucesso no cinema assim como é nos videogames. Espero muito que façam um segundo filme. Ou quem sabe uma série de TV…