Pantera Negra | Crítica

Cultura, desigualdade social, conflitos políticos e empoderamento feminino dão tom ao novo filme da Marvel.

É possível que um super herói consiga expurgar o mal provocado pela desigualdade social? Na realidade distópica da Marvel, o rei T’Challa de Wakanda, conhecido como Pantera Negra, saído de uma grandiosa lenda Africana, fará o possível para proteger a humanidade não apenas de vilões caricatos, mas também das circunstâncias cruéis de uma vida prejudicada pela pobreza e pelo ódio.

Pantera Negra é um dos filmes mais sensíveis e lindos da Marvel sob muitos aspectos. A história do rei T’Challa é cativante, principalmente pelo forte senso político e social que dentre muitas abordagens importantes, destaca a cultura africana e a luta racial que preza acima de tudo o respeito e a dignidade de um povo. Sem superficialidade, o filme explora um debate consciente e essencial para a sociedade através da fantasia, expondo as raízes de um problema que por anos fora soterrado por ideologias antiquadas e nocivas.

O mito narrado do Pantera Negra resgata a beleza e a riqueza da Africa como um todo, misturando em sua composição elementos étnicos e culturais do vasto continente, onde as inúmeras tribos e povoados possuem características diferentes e marcantes, contos e lendas próprios, que se unem em essência no enredo do longa e nas personalidades das personagens, bem como em suas caracterizações. O cinema precisava muito de uma história que celebrasse a negritude completamente, exaltando a beleza e as complexidades do movimento.

O país Wakanda é uma mistura de ilha paradisíaca com cidade futurista, abriga um povoado próspero e extremamente avançado tecnológicamente, já que eles possuem Vibranium em abundância, um importante metal do espaço que garantiu a região poder, riquezas e avanços extraterrenos. O mais interessante é a simbologia desse reino, já que ele está escondido do mundo, camuflado numa Africa decadente tomada pela miséria, para evitar que países externos tentem se apropriar do material e destruir a população, como os primeiros colonizadores fizeram há anos atrás.

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T’Challa conhece os seus principais desafios e conflitos internos por meio da conexão espiritual com os seus antepassados, do forte elo com o legado de sua família e assume a responsabilidade de proteger o país e os Wakandianos. Mas o choque de realidade entre esses dois mundos, onde T’Challa divide a vida de herói e rei, é a ideia central e o principal embate do Pantera Negra, levando a reflexão de que enquanto milhões de negros sofrem do outro lado é dever do Pantera defender toda a sua nação.

Todas as personagens estão envolvidas num forte sentimento de compaixão e luta, desde Nakia (Lupita Nyong’o) até mesmo o vilão Killmonger (Michael B. Jordan), que se consolidou como um dos melhores da Marvel. A motivação de Killmonger é justa e compreensível, de modo que ele não é um ser completamente do mal, mas alguém determinado a fazer justiça de um modo errado, canalizando suas raivas, mágoas e dores internas na destruição de um patrimônio que em mãos erradas pode tornar-se desgraça e não salvação. A sua “maldade” é gerada por um profundo desequilíbrio emocional, e apesar de aparentar força, possui certa fragilidade.

Não é apenas as discussões políticas e raciais que brilham no roteiro de Pantera Negra. O filme está repleto de mulheres poderosas e inteligentes que são, em sua maioria, personagens importantes para o desenvolvimento da história, além de serem fortes e incríveis, representam na obra o feminismo e a batalha da mulher negra. Numa sociedade machista e preconceituosa, a Marvel provoca e instiga o telespectador com naturalidade ao trazer á tona as controvérsias da humanidade.

Apesar da famigerada estrutura da Marvel que fica sempre evidente desde a narrativa até os efeitos, técnicas e piadas, Pantera Negra se sobressai mesmo nesses aspectos. O filme tem poucos momentos de alívio cômico, e o humor é mais inteligente e menos bobo. As cenas de ação foram muito bem coreografadas, são muito empolgantes e emblemáticas, desde os rituais de luta até a perseguição no melhor estilo 007. De todos os longas da marvel, esse é o menos colorido e o mais vivo, as cores quentes demarcam cenas mais frenéticas e místicas, enquanto uma frieza sombria e sutil predominam.

Figurino e trilha sonora dão ainda mais prestígio para todo o conjunto. As roupas estão perfeitamente alinhadas com os aspectos culturais das raízes africanas, com ênfase nas caracterizações das tribos que envolvem dreds de diversos estilos, desenhos tribais, alargadores, turbantes, misturando a moda black desde os tempos primitivos até o moderno. As músicas originais compostas por Ludwig Goransson e Kendrik Lamar, resultaram numa mistura de rappie para os momentos descontraídos, e o maravilhoso canto africano, que nos remete a natureza e a liberdade de ser, cheio de energia e ritmo, criado em conjunto com orquestra e coral.

Para fechar com maestria, Pantera Negra reúne simplesmente um casting perfeito com os melhores atores negros da atualidade e outros nomes admiráveis, como Danai Gurira (The Walking Dead), Daniel Kaluuya (Corra!), Letitia Wright (Black Mirror/ Black Museum), Forest Whitaker (Rogue One), Andy Serkis (O Senhor dos Anéis) e Martin Freeman (O Hobbit). Todos sem exceção deram um show de atuação, interpretando seus personagens com emoção e vontade. Destaque para Andy Serkis de Klaue, que simplesmente arrebentou com os seus ataques de loucura e sadismo.

Pantera Negra se consolida como o filme de super herói mais importante e inteligente até o momento. Vai ser difícil, mesmo para a Marvel, superar essa conquista e fazer novamente um filme tão interessante, representativo e rico nesse contexto mercadológico na era das adaptações de HQs. O filme estreia dia 15 de fevereiro e já está em pré venda nos cinemas de todo o Brasil.