Kong: A Ilha da Caveira | Crítica

Kong é um ícone do cinema. Em mais de 80 anos, o rei gorila ganhou diversas adaptações, sendo o original de 1933, os remakes de 1976 e 2005 e a batalha japonesa contra Godzilla os quatro filmes mais conhecidos com o personagem. Agora, numa versão repaginada, a Legendary retorna à franquia após uma década desde seu último longa para um prelúdio, tudo com o propósito de criar um universo interligado de monstros gigantes. Ou seja: O Kong foi pensado para lutar contra o Godzilla.
A trama ocorre em 1973 e os Estados Unidos sofrem pela perda (ou “desistência”, como um dos personagens insiste em dizer) da Guerra do Vietnã. Com a tecnologia evoluindo, uma ilha é descoberta e uma equipe formada por soldados, cientistas e outras pessoas a mais é mandada para investigar essa nova ilha. Quem idealiza a exploração são o cientista Bill Randa (John Goodman) e o geólogo Houston Brooks (Corey Hawkins). A escolta militar é comandada pelo sargento Preston Packard (Samuel L. Jackson). São recrutados também o mercenário James Conrad (Tom Hiddleston), a fotógrafa Brie Larson (Mason Weaver), a bióloga San Lin (Jing Tian) e o geólogo Houston Brooks (Corey Hawkins), embora esses dois últimos participem da trama como se fossem figurantes da equipe principal.
Com um elenco de peso, quais as chances do filme dar errado? Muitas, claro. Escolha de elenco não define a qualidade do produto. Felizmente, Kong é um filme que entretém, mas apenas isso mesmo. O longa é bem objetivo: a equipe explorando a ilha e tentando sobreviver aos perigos. Os sobreviventes são divididos e acompanhamos cada grupo separadamente ao longo da trama. Há pontos positivos e negativos nessa escolha, como manter um foco no que está querendo ser mostrado e trabalhar melhor cada personagem em seu momento, mas também o risco de cansar o público em determinadas cenas reciclando diálogos e inserindo conteúdo indiferente. O roteiro não é o forte, mas é aceitável. O humor utilizado, piadas clichês inseridas aleatoriamente, agrada em parte, mas em outras são bastante mornas.
O que mais chama a atenção em Kong (filme) é o visual atraente, acompanhado de uma trilha sonora envolvente. Outro destaque são algumas das cenas de ação, com soldados de guerra enfrentando seres colossais, sendo o principal deles o famoso gorila Kong (personagem), que ainda não é rei, mas sim um deus da Ilha da Caveira. Embora deixem a desejar em alguns desses momentos, em outros acertam de forma a brilhar os olhos. O primeiro encontro com Kong é tão empolgante que o clima é de Apocalipse Now a cada quadro (inclusive o filme chegou a homenagear o épico longa de guerra num de seus posteres). É um festival de explosões e tiros, helicópteros caindo, soldados com metralhadoras atirando desesperadamente, uma verdadeira guerra. Um momento único a ser apreciado.
Mas o que compensam em alguns elementos, em outros deixam a desejar, como já demonstrei anteriormente. Quando se vê um filme sobre monstros gigantes, o mínimo esperado são monstros gigantes, óbvio. Kong até entrega certa quantidade, mas são tão poucos, um número tão minúsculo de seres para uma ilha justamente onde vivem esses seres. Isso resulta em poucas cenas com esses colossos, poucas marcantes, e, mesmo que cada vez costume parecer um novo, a sensação de falta permanece. O longa tem sua espécie principal graças a uma busca errônea de criar vilões para trama (afinal, o Kong só atacou porque fizeram besteira, ele não é “do mal”, embora tenham personagens que considerem isso), mas e as outras criaturas? Só existe uma de cada espécie? Cadê todos?
O título do longa pode passar uma imagem diferente para alguns. Estamos falando de um longa sobre um gorila e sua ilha, mas o Kong sequer tem foco total para ele, nem deveria mesmo. Dos “monstros” (palavra totalmente errônea), ele é o grande destaque, quem cria um segundo objetivo no filme e faz a trama girar, mas a ilha é que é a personagem principal do longa, o ambiente que proporciona todos os desafios. O filme inclusive seria chamado apenas de Skull Island, mas muitos poderiam não saber que se tratava de Kong. É uma produção para a grande massa, então deveriam tornar tudo mais atrativo e aceitável para a maior quantidade de pessoas.
Entre tantas versões, ‘Kong: A Ilha da Caveira’ marca por ser inédito e apresentar um mundo a ser explorado. Embora tenha seus defeitos, o longa consegue entreter. A trama no passado pós-guerra torna tudo mais interessante e cria vínculos para um universo maior, universo este que está sendo construído. Por enquanto não teremos outro longa focado na Ilha, mas em 2020 teremos a tão aguardada batalha do século: Godzilla vs Kong. O filme foi criado para esse momento e não fizeram de qualquer jeito. Kong ainda está crescendo e, por mais sem noção que pareça o crossover, o gorila poderá se tornar um oponente forte para o lagartão. Para os fãs do Godzilla, há uma “surpresa” na cena pós-créditos (nada que não tenha sido revelado antes através de notícias, tanto que a cena quase foi cortada, mas para muitos poderá ser novidade [e a sensação de ver aquilo se realizando não tem preço]). Que venha Godzilla 2 e Godzilla vs Kong!