Festa da Salsicha | Crítica

A animação mais criativa, nonsense e besteirol de 2016

Festa da Salsicha ultrapassa os limites da insanidade e não sabe quando parar, gerando um resultado promissor, porém duvidoso. Comédia e drama se misturam numa aventura tão viajada que nos faz indagar sobre a existência do longa. Para a crítica, devo me adequar ao estilo do filme, mas sem me rebaixar ao seu nível. Drogas pra que, se essa animação mostra muito bem as consequências disso? Acredite: O trailer não prepara para o que está por vir. Nem um pouco.
Foram anos para que a animação fosse aprovada pela Sony. Desde South Park não tivemos uma animação adulta com tanto investimento e estreando em grande escala. A demora não foi à toa, já que estamos tratando de algo polêmico e de alta classificação. Uma coisa é fazer um filme besteirol, outra é uma animação, que por si só possui seu público reduzido devido a preconceitos de que “é coisa de criança” (imaginem as crianças vendo isso, os pais teriam um infarto).
O principal responsável pela animação foi ninguém menos que o polêmico Seth Rogen. Foi uma grande equipe dedicada a construir esta obra inesperada, dentre eles Evan Goldberg. Os envolvidos foram os mesmos responsáveis por filmes como Superbad, É o Fim e A Entrevista.
Prometido como uma espécie de paródia aos filmes Disney/Pixar, inclusive com algumas referências, o longa consegue ser interessante ao dar vida aos alimentos, inserindo também críticas a assuntos como preconceito e religião, mas ao mesmo tempo se perde em querer impor piadas de duplo sentido a todo momento. Se você espera um grande debate filosófico sobre as crenças que nos impedem de fazermos coisas que queremos, prepare-se para, ao invés disso, ouvir a cada cena alguma piada sobre a salsicha querendo entrar gostoso no pão ou encostar a pontinha. Depois não diga que eu não avisei.
Com roteiro adaptado pelo Porta das Fundos, a versão brasileira do filme é competente ao entregar piadas que façam sentido para nós brasileiros. Por um lado é ótimo, mas por outro perde os diversos trocadilhos que o longa proporciona.
Os primeiros minutos já demonstram o nível da animação através de uma apresentação musical bizarramente empolgante com diversos produtos do mercado, principalmente alimentos, onde todos cantam sobre os deuses (no caso, nós humanos, a não ser que você que esteja lendo não seja um, daí ignore esse comentário). A maioria canta alegre, querendo que os deuses os levem para o “Paraíso”, mas alguns poucos sabem da verdade e cantam assustados querendo continuar no mercado.
O grupo principal de personagens é formado pelo salsicha Frank, pela pão Brenda, pelo lavash árabe Kareem e pelo bagel judeu Sammy. O vilão completamente desnecessário da trama é o Ducha, que dispensa comentários para que minha mente guarde o resto da sanidade que me sobrou. Durante a ida para o paraíso, um acidente fatal ocorre quando o carrinho de compras tomba. A maioria dos sobreviventes são levados pela deusa do carrinho, mas esses citados acabam ficando presos no mercado. Como estão fora da embalagem, sabem que serão descartados. O Ducha acaba sendo jogado fora e decide se vingar de Frank. E pensar que Frank e Brenda só queriam ter relações…
Em determinado momento, Frank descobre que tudo aquilo é uma mentira, que o paraíso não existe e que os alimentos são criados para puro consumo dos deuses. Disposto a acabar com aquilo, ele tenta avisar a todos, mas é ignorado. É dentro desse contexto que o filme se aproveita para as críticas religiosas, usando preconceito e ignorância que no final se converte numa moral de respeito ao próximo. Talvez não exatamente do jeito que deveria ser, mas o ideal é válido. Uma das críticas, já citada anteriormente, é a da existência de regras supostamente divinas que impedem os seres de satisfazerem seus desejos. Obviamente estão tratando do desejo carnal, mas o sentido é válido para tudo.
Com o tempo, a trama se divide entre o grupo principal e os alimentos que foram para o falso paraíso. Mesmo assim, a animação dura mais que o necessário, arranjando tempo para inserir todas as piadas toscas possíveis, do nível de mente maldosa de adolescente da quinta série.
O humor bastante duvidoso vai além, muito mais sacana e explícito que qualquer filme do tipo, se aproveitando do fato de ser uma animação para representar seu besteirol num nível intenso. É utilizado um humor negro pesado, politicamente incorreto, altamente ácido e por vezes preconceituoso, se utilizando fortemente de estereótipos, duplos sentidos e situações duvidosas.
O tipo de humor utilizado é algo que vem sendo debatido desde muitos anos. Não posso criticar aqueles que riem das piadas, por mais imbecis que sejam, afinal, esse foi o objetivo, ser escrachado mesmo, polêmico. Porém, ressalvas devem ser feitas. Para isso, citarei dois casos.
O primeiro é em relação a piadas envolvendo coisas sérias como abuso ou algo do tipo, como na cena de estupro simulado onde o Ducha chupa uma caixa de suco que está vazando pela região de baixo enquanto a caixa morre pedindo por ajuda. Mesmo que sejam seres ‘inanimados’, não consigo de jeito nenhum ver algo engraçado nessa situação. Diferente de mim, percebi que praticamente todos que estavam presentes na mesma sessão que a minha riram. E riram muito.
O segundo caso é semelhante, mas envolvem grupos específicos. A ideia do humor negro é criticar, tocar na ferida, e isso o filme faz com religiões. Dentre elas, a relação conflituosa entre judeus e árabes é bem retratada e é visível que tudo aquilo é irônico. Como disse, uma moral com bons ensinamentos surge ao final, mas certo acontecimento que ocorre depois se torna uma grande heresia para tais grupos, fazendo-os ignorar tudo o que foi construído até ali. Alguns conseguiram entender a mensagem, mas outros só verão ofensas.
Não é minha intenção ser o chato e nem estou de mimimi. O humor deve ser estudado e é a melhor forma de quebrar tabus, sendo ousado e fazendo o que muitos não tem coragem de fazer, ironizando aquilo que muitos insistem em não ver. Porém vivemos numa sociedade com noções pré-programadas do que é aceitável ou não, e tais noções nos ditam até onde podemos ir. Se é para passar dos limites, que seja por um ideal de melhoria social, de tornar as pessoas mais mente aberta a novas ideias. Lembrando que não me refiro ao humor do filme em geral, mas a casos específicos. Enfim.
Uma das coisas que mais incomodou no filme foi a quantidade de xingamentos. Existe uma necessidade fútil de se provar adulto ao inserir palavrões a todo momento, mesmo que fique forçado. Tudo bem que muitos xingam normalmente durante o dia, mas o que a animação faz é exagerar nesse contexto, estragando a naturalidade dos diálogos.
Em meio a cenas ora divertidas ora vergonhosas, toda a tragédia das comidas levam a um desfecho inacreditável, o auge de toda a viagem, em parte surpreendente, em parte repudiante. São minutos insanos com grandes reviravoltas de explodir o cérebro a cada cena, momentos marcantes que ficarão na mente daqueles que presenciaram. Em contrapartida, ao fim toda a mensagem da trama (não adianta fingir que não tem) se resume a “faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço, a não ser que queira fazer, até porque você pode, mas não que seja o correto, embora não seja errado, apenas se você considerar errado com base na sociedade, aí sim é muito errado“.
Criatividade a mil, premissa interessante, clímax inesquecível, cenas bastante divertidas e certo humor crítico dividem espaço com cenas completamente desnecessárias (incluindo aí alguns personagens) e humor sofrido numa comédia besteirol mais pesada que qualquer filme do gênero. Festa da Salsicha pode não ser uma obra-prima, mas criou um universo rico que pode ser reaproveitado futuramente.

Festa da Salsicha (Sausage Party, 2016)
Jornalista e apreciador da cultura geek, gosta de ver filmes, ler quadrinhos e ouvir música. É fã da cultura asiática e quer ser escritor de ficção para dominar o mundo.