Death Note (2017) | Crítica

Adaptação americana pela Netflix é problemática e superficial.

Uma coisa que os fãs sempre cobram quando veem suas obras adaptadas é a fidelidade. Adaptar uma obra tão famosa como Death Note é, e sempre será, motivo de preocupação para os fãs mais aficionados.
Quando se trata de uma obra asiática sendo convertida para uma produção americana, o medo cresce. Não é a toa; existe um legado de produções do tipo detonadas por crítica e público, como se fossem uma desonra para a obra original. Mas, se nem os japoneses conseguiram agradar a todos com suas versões, quem dirá os Estados Unidos.
A obra com roteiro de Tsugumi Ohba e arte de Takeshi Obata surgiu em 2003 como mangá e teve, ao todo, 12 volumes. Na trama, o estudante Light, através de seu alter-ego intitulado Kira, punia todos em seu caminho que considerasse podre para a sociedade. Para isso, ele usava um caderno sobrenatural onde, aquele que tivesse seu nome escrito nele, seria morto. Rapidamente ele começa a ser perseguido pelo misterioso detetive L.
Com o sucesso, não tardou para as adaptações virem. Em seus 10 anos após o fim do mangá, entre 2006 e 2016, foram lançados um anime, dois livros, dois filmes animados resumindo o anime, quatro filmes com atores reais, um dorama (ou seriado) e três musicais teatrais.
Leia mais: A trajetória da franquia Death Note

A ADAPTAÇÃO AMERICANA

Como de costume, também não demoraria para uma versão americana ser planejada. Há relatos de 2007 sobre a adaptação. Em 2011, Shane Black (Homem de Ferro 3), que dirigiria o filme na época, chegou a dizer que queriam tirar o shinigami (deus da morte) e deixar o Light bondoso, o que quase fez o projeto ser cancelado.
Apenas em 2015 a Warner confirmou que o filme sairia, contratando Adam Wingard (Bruxa de Blair) como diretor e Jeremy Slater (Quarteto Fantástico) como roteirista, mas, devido a uma redução de custos, o projeto foi cancelado. No ano seguinte, Wingard vendeu o projeto para a Netflix, que decidiu comprar os direitos da Warner e seguir em frente, mantendo a equipe que trabalhava no longa. Agora, em 2017, o Death Note finalmente viu a luz do dia.
Para aqueles de mente aberta, os filmes em live-action e o seriado (ou dorama) podem ter sido uma grata surpresa. Para os de mente fechada, foi uma sofrência sem limites. Curioso que os próprios criadores do mangá chegaram a elogiar o primeiro filme numa entrevista, que acabou sendo publicada no “13º volume” do mangá, uma enciclopédia com informações da obra. Não que seja para levar a sério, visto que eles também elogiaram a adaptação americana.
Depois de muitos adiamentos, a versão americana finalmente saiu pela Netflix. Será que valeu a pena esperar todo esse tempo ou ele deveria nunca ter saído do papel? A resposta é… não, não valeu a pena. Mas espere, não foi de todo ruim.

ADAPTAÇÕES

Uma das reclamações mais sem sentido em relação ao filme foi a nacionalidade dos atores. Ora, visto que era uma adaptação americana se passando nos Estados Unidos, por que deveria ter atores japoneses? Infelizmente o diretor não soube responder e, antes do filme ser lançado, disse que havia procurado um ator japonês para o L, mas não encontrou.
Era melhor ter ficado calado. Num país vasto como aquele, difícil não ter encontrado ninguém. Não sei o que é pior: isso ou o fato dele não saber que o L não é japonês, mas sim britânico. O diretor tentou se justificar depois pela escolha do elenco, mas só piorou a situação. Mas vamos ao filme.
Uma das coisas que mais atrai em Death Note, seja mangá ou anime ou qualquer uma das outras adaptações, é a inteligência dos personagens. A interessante trama de um caderno que pode matar apenas escrevendo o nome da pessoa é agregada aos personagens que formaram sua história.
Dentre os diversos personagens, temos Light, um estudante com vontade de fazer justiça e ser o “deus do novo mundo”; L, um detetive obcecado por doces que quer prender Kira por não concordar com sua ideologia; Misa, uma garota alienada e fã do Kira, que faz tudo o que ele deseja; Ryuk, um deus da morte que se diverte com os humanos e é proprietário do caderno que está com Light; Remu, outro deus da morte que cuida de Misa; entre diversos outros personagens, como a equipe de investigação, a policial, etc.
E o que isso tem a ver com o filme? Não muito. Trazendo uma releitura de toda a obra, a versão da Netflix decidiu seguir um caminho mais curto, até para não comprimir 12 volumes / 37 episódios em cerca de uma hora e meia. O problema foi a história rasa e os personagens contraditórios. Tudo bem que é uma adaptação (há quem diga que não), mas isso não é garantia de qualidade nem protege o resultado de críticas. As adaptações japonesas conseguiram, por mais que o público otaku daqui seja dividido quanto a isso, obter sucesso.
Entenda o porquê das adaptações serem tão diferentes.
Na nova versão, Light Turner (Nat Wolff) é um estudante rejeitado que faz o dever de casa dos outros em troca de dinheiro. Certo dia ele encontra um Death Note, pertencente ao shinigami Ryuk (Williem Dafoe), e logo conta seu segredo para Mia Sutton (Margaret Qualley). Apaixonados, os dois iniciam a busca por um mundo melhor sob o nome de Kira, mas logo começam a conflitar entre si e a serem perseguidos por L (Keith Stanfield), um detetive que quer, a qualquer custo, deter Kira. O pai de Light, James Turner (Shea Whigham) é chamado para se unir a L, que possui alguns informantes, como seu cuidador Watari (Paul Nakauchi).
Se no anime Light era aquele cara inteligente e cuidadoso, na nova versão vemos um rebelde medroso que possui uma relação conturbada com seu pai. L, que era o oposto de Light, mesmo tendo muito em comum, aqui é um cara que age por emoções acima da razão. ‘Misa‘, ao invés de submissa, é independente e também é quem toma atitudes mais radicais em nome de Kira. E, se no original Light se aproveita de Misa, aqui os dois são um casal apaixonado e nada mais. E não existe Remu nem outro Death Note, apenas Ryuk e seu caderno.
A versão também traz mudanças quanto as regras do caderno. No original, caso o portador não quisesse o caderno, era apenas dizer e pronto. Nessa versão, ele tem que ficar sem usar por sete dias. De acordo com o diretor, nenhuma regra foi mudada, apenas acrescentada, o que talvez explique o furo de roteiro quando Light diz não querer mais e que Ryuk poderia levá-lo, mas não leva. Outro ponto que descarta a afirmação do diretor é a de que ninguém vê o shinigami mesmo encostando no caderno, enquanto no original é regra: quem encostar verá.
Falando em furos, os personagens parecem não possuir rumo, sendo até mesmo contraditórios. Espera-se de uma investigação o maior cuidado possível. Estamos falando de uma equipe caçando o maior assassino de todos. Mas o que vemos é Light e L brigando entre si na frente de todos e sem cuidado para se esconderem.
No original, embora L nunca tenha escondido que suspeitava de Light, ele sempre buscou formas de acusá-lo. Na nova versão isso não existe, L apenas enfrenta Light esperando que dê certo.
Outro problema vem com Light. No original ele tem cuidado para não mostrar o caderno para ninguém. Aqui ele sequer esconde o caderno. Quando Mia pergunta para ele o que é, ele conta quase que imediatamente. Isso além do fato dele se amedrontar mesmo matando um monte de pessoas. Seu instinto de bem e mal é muito normal para sua psicopatia.
Os temas tratados na obra original, como o que é justiça, quem está certo ou errado, o que se deve fazer com criminosos, etc, aparece, no longa de forma superficial. Estão lá apenas por estar, sem qualquer aprofundamento.
O que atrapalha todo o desenvolvimento do filme é a insistência dos roteiristas de manterem elementos do original em algo completamente diferente. Sim, é uma releitura, é baseado numa obra já existente, adaptado para os costumes nacionais, mas, tendo em mente que seguiriam algo diferente, porque colocar o máximo possível de ideias do original mesmo que soe forçado? O resultado é uma trama corrida onde nada leva a nada.
Mas nem tudo está perdido. A releitura americana consegue manter a ideia da obra (e apenas ela mesma), embora se perca em sua própria premissa. Em contrapartida, temos um visual atraente, sombrio, com direito a cenas escuras, jogadas de câmera e enquadramento e também um toque de gore nas cenas de morte. A trilha, apesar de duvidosa sem alguns momentos, funciona na maior parte do tempo.

CONCLUSÃO

Difícil dizer como Death Note foi de um jogo de gato e rato para um romance adolescente e uma perseguição entre dois caras irritados, mas o que foi feito está feito e não se pode voltar atrás. Ao fim, a obra não é tão ruim quanto alguns consideram, mas não chega a ser bom. Com um péssimo final aberto, a história se “encerra”, mas deixa gancho caso tenha continuação. Wingard diz que está esperando o sinal verde da Netflix. E você, quer uma continuação ou já foi o suficiente? O que poderiam contar no próximo filme visto que quase tudo do original foi desperdiçado aqui? Apoia uma franquia americana própria livre da obra original assim como a japonesa fez?
Confira a crítica do filme de Death Note que vale. Death Note: Light Up the New World é o quarto filme da franquia japonesa.