X-Men: Fênix Negra

Competente e com os pés no chão, o novo filme dos X-Men apresenta, de certa forma, uma conclusão para esta grande saga iniciada nos anos 2000.

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Há quase 20 anos atrás, os X-Men chegavam aos cinemas. Sendo um dos pioneiros nesta nova leva de filmes de super-heróis nos cinemas, o filme de Bryan Singer lançado em 2000, obteve sucesso ao adaptar uma das principais equipes da Marvel Comics para fora dos quadrinhos. Carregado de temas que conversam com a sociedade contemporânea, a franquia X-Men manteve forças, ao longo de duas décadas, para sustentar cerca de mais de 10 filmes baseados em seu universo singular de personagens. Passando por altos e baixos, chegou a vez da franquia apresentar novamente a adaptação da icônica Saga da Fênix.

Se tratando de uma das principais histórias dos X-Men nos quadrinhos, a sua adaptação não era uma tarefa fácil. Temos essa certeza ao revisitarmos X-Men: O Confronto Final (Brett Ratner, 2006), onde tivemos a primeira, e medíocre, adaptação desta grande história. Com a tarefa de refazer o dever de casa da maneira correta, sai de cena o diretor Bryan Singer, que retornou para a franquia em Dias de Um Futuro Esquecido (2014) e Apocalipse (2016), e compete agora a Simon Kimberg a tarefa de escrever e dirigir o novo filme com uma trama já conhecida pelos fãs. E isto faz com grandes méritos.

Kimberg não é um novato na franquia. Embora já acostumado a escrever, é a sua vez de estrear no cargo de direção. Graças a isso, aqui, seu trabalho estava repleto de incertezas quanto a sua qualidade final. Incertezas que se esvaem desde os primeiros minutos de X-Men: Fênix Negra. Logo em seus primeiros momentos, o novo filme se mostra seguro e desperta a curiosidade até mesmo dos mais pessimistas.

Sem entrar em detalhes que gerem spoilers, a trama do filme é simples, interessante e funcional. Após os eventos de X-Men: Apocalipse, os X-Men não são vistos mais como uma ameaça, pelo contrário, são heróis nacionais. Dispostos a ajudar a humanidade a qualquer custo, a equipe se vê em uma missão espacial de resgate, a qual quase causa a morte de Jean Grey ao entrar em contato com uma misteriosa força cósmica. Tal força amplia seus poderes mas também a deixa instável. Fora de controle, Jean se torna uma ameaça tanto para a humanidade quanto para os mutantes, que não compreendem tamanho poder. Ao mesmo tempo em que Jean se torna uma ameaça em potencial, uma misteriosa raça alienígena busca o poder da Fênix para dominar a galáxia.

Embora não seja perfeito e apresente algumas linhas que servem apenas para a trama seguir adiante, o roteiro assinado por Simon Kimberg atende a sua proposta e, por muitas vezes, surpreende com escolhas que valorizam os principais personagens dessa franquia, destacando plots e escolhas que condizem com todo o universo já estabelecido até ali. Embora não consiga desenvolver todos os personagens presentes, em seu arco principal, se prova muito funcional.

O elenco, mais uma vez, merece destaque. Sophie Turner consegue trazer à Jean Grey toda a força, dúvidas e temores que a cercam. Mesmo que as ações de Jean atinjam diretamente toda a equipe, Tye Sheridan (Scott Summers/Cíclope) carrega em si todos os efeitos das ações de Jean. Da mesma forma, James McAvoy (Charles Xavier) e Michael Fassbender (Erik Lehnsherr/Magneto) se destacam em seus papéis. Aqui, mais do que nunca, existe uma dualidade interessante em seus personagens. Suas motivações, erros e acertos são colocados a prova e garantem a compreensão e atenção do público. O mesmo pode ser dito de Nicholas Hoult (Hank McCoy/Fera), que ganha novas camadas, além da já conhecida fidelidade aos X-Men, vista desde o excelente e memorável X-Men: Primeira Classe (2011).

Todos os elogios que recaem sobre todo o elenco principal, também se depositam na personagem de Jessica Chastain, mas com algumas ressalvas. Embora entregue uma excelente atuação e cumpra todos os requisitos que sua personagem exige, seus defeitos se encontram no roteiro. A sensação de que poderia ser melhor trabalhada e ter ainda mais destaque, é inegável. Mesmo sendo boa, atendendo as expectativas e surpreendendo por sua determinação e frieza, o roteiro faz com que sua personagem não apresente, nos heróis, necessariamente um senso de extrema urgência que suas ações representam, fazendo com que, em uma escala, fique atrás de vilões como Sebastian Shaw (X-Men: Primeira Classe) e William Stryker (X-Men 2), ambos clássicos e extremamente memoráveis.

Em partes técnicas, a cinematografia adotada por Simon Kimberg é excelente. Com planos interessantes, uma bela fotografia, e efeitos especiais muito bem feitos, o filme consegue se mostrar com uma estética nova e original. A dosagem entre drama e ação se encaixa muito bem na história destes personagens, bem como o seu clima mais denso, lembrando em muitos momentos o apresentado em Logan (James Mangold, 2017). Em conclusão, o que poderia ser um tiro no pé, dado ao histórico da franquia, se provou como algo fluído e muito bem equilibrado, provando que não é necessário ser grandiloquente quando se tem uma boa história.

Outro ponto positivo recai sobre a excelente trilha sonora composta por Hans Zimmer. Conhecido por excelentes trabalhos em Hollywood, aqui Hans retorna para os filmes de super-heróis trazendo em suas composições todo o drama e peso exigido pela história.

Em sua totalidade, Fênix Negra se prova como um filme de grande potencial, mas que não o aproveita ao máximo. Isto é compreensível visto que a produção passou por alguns problemas e adiamentos, justificáveis pela recente compra da Fox pela Disney, a detentora do Marvel Studios e do Universo Cinematográfico Marvel. Concebido inicialmente não necessariamente como uma conclusão para a saga, a incerteza de continuidade pairou sobre os responsáveis pelo seu desenvolvimento, o que fica evidente em tela.

Em conclusão, o novo filme dos mutantes carrega emoção, força e empolgação, porém, como um final para a saga, carece de elementos merecidos pela franquia. Neste quesito, é X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido que apresenta em seus minutos finais uma digna e concisa conclusão.

No entanto, recheado de referências aos quadrinhos e aos demais filmes, X-Men: Fênix Negra se prova como um longa metragem competente e um dos melhores de toda a série, concluindo, de certa forma, uma história que perdurou nos cinemas com dignidade e representatividade durante duas décadas, agregando fãs e os estabelecendo como um público que acredita no potencial desta grande equipe.