Coraline é uma obra de fantasia e horror escrita por Neil Gaiman publicada originalmente em 2002. Foi bem recebida por crítica e público, ganhando prêmios. Gaiman, responsável por Sandman, Os Livros da Magia e outros clássicos, decidiu se aventurar numa trama “infantil”.

Em 2008, o livro recebeu uma versão em quadrinhos ilustrada por P. Craig Russel, que trabalhou em editoras como a DC e a Dark Horse. Inclusive em obras de Gaiman, dentre eles o já citado Sandman.

Foi apenas em 2009 que a obra ganhou espaço nos cinemas, com um elogiado stop-motion produzido pela Laika. O longa foi dirigido e roteirizado por Henry Selick, o mesmo de O Estranho Mundo de Jack. Um jogo baseado no filme foi lançado um mês antes do lançamento, mas acabou sendo massacrado pelas críticas.

Trama

Cena do filme mostrando o cotidiano de Coraline e sua família.

De forma bem resumida, a trama acompanha uma garota chamada Coraline, que se muda com seus atarefados pais para um antigo apartamento num lugar afastado, cercado de vizinhos “peculiares”. Aventureira e sem receber a devida atenção, Coraline acaba por descobrir uma porta que leva a um outro mundo onde as pessoas usam botões nos olhos. Lá, sua “outra mãe” a encanta com alegrias que ela não tem em seu mundo real, mas logo a verdade começa a surgir.

Obs.: Por se tratar de comparações, há SPOILERS.

Começo e foco

Cena do filme onde Coraline descobre a passagem para o outro mundo.

O livro é bem curto, com pouco mais de 150 páginas e mesmo assim num formato pequeno. O poder da história, entretanto, pesa. O clima de “chatice” da realidade reina nas primeiras páginas, onde o autor nos coloca na pele de Coraline e nos oferece sua visão de mundo. Ela ainda está na faixa criança/adolescente e quer se divertir explorando lugares. São seus últimos dias de férias.

O filme, com seus 100 minutos aproximadamente, começa semelhante. Os diálogos e as situações permanecem bem parecidas, mas toma um caminho mais amplo. A começar pela adição de Wybie, neto da dona do local onde Coraline vai morar. Um acréscimo muito positivo para boa parte da trama como amigo de Coraline. Ao mesmo tempo que reforça o lado infantil da protagonista, torna o mistério maior ao comentar “coisas que ouviu da avó”.

O grande foco do livro é no outro mundo e na aventura de Coraline por ele, ocupando a maior parte das páginas. Tudo antes disso, embora com um desenvolvimento aceitável, ocorre de forma apressada. Curiosa e felizmente, sem perder o ritmo decente para que as informações fluam inteligíveis. O livro na verdade possui um estilo muito mais ágil e macabro em comparação a sua adaptação. Nesse quesito o filme acaba desenvolvendo melhor atrama, embora minimize esse peso assustador.

A tentação

Cena do filme onde os “outros pais” de Coraline a iludem.

Um grande exemplo de diferença no desenvolvimento é a tentação da “outra mãe” (chamada no filme também de Bela Dama). Após conhecer seus vizinhos, Coraline encontra uma porta dentro de casa que leva para outro mundo. No livro, Coraline tem um misto de sensações. Tudo é estranho para ela e o autor demonstra isso muito bem. Ela é tentada pelos momentos de diversão, mas mesmo assim aquele clima sombrio, meio depressivo, continua tomando conta das páginas. Não tarda muito até que a verdade se revele.

Quem viu o filme primeiro, chega a estranhar que, no livro, a “outra mãe” já ofereça os botões para Coraline logo na primeira visita. E é isso mesmo. Acontece que no filme a situação é bem mais desenvolvida. Coraline chega a adentrar o outro mundo algumas poucas vezes e, a cada vez que sai, retorna ansiosa por voltar. Ela conta a seus pais reais, ao Wybie, mas ninguém acredita nela. Tudo é divertido, tudo é colorido, tudo é mágico, tudo é atraente. Chega uma hora que os botões são oferecidos e a reviravolta começa.

Notável a reação da “outra mãe”. No livro, ela soa muito mais paciente que no filme, tentando Coraline, prometendo coisas, mesmo recebendo “não” direto. No filme ela soa mais impaciente. Curiosamente, no livro ela parece mais rigorosa. Talvez devido aos seus pedidos. Ou foi só impressão minha mesmo.

Outra grande diferença é na questão do rapto dos pais de Coraline. No livro, após Coraline recusar os botões, ela volta pra casa e nota que seus pais sumiram, o que a faz voltar para o outro mundo. No filme, após os botões, Coraline continua presa no outro mundo, até que o “outro Wybie” ajuda ela a escapar. Ela foge, percebe que seus pais sumiram e volta. No livro o período de Coraline sem os pais é um pouco maior que no filme.

Demais personagens

Cena do filme onde Spink e Forcible leem folhas de chá.

No filme, os vizinhos de Coraline soam mais excêntricos que no livro. As senhoritas Spink e Forcibe no livro são idosas adoráveis com seus cachorrinhos, enquanto no filme soam mais “loucas”. O senhor Bobinsky no livro (onde se chama Bobo) é um homem aparentemente normal também, enquanto no filme chega a ser “insano”. É possível dizer que o filme reforça a visão de Coraline sobre as pessoas, algo que no livro, apesar de também ocorrer, trata tudo com mais naturalidade.

Apesar das diferenças, suas características são bem semelhantes em ambos, assim como os acontecimentos descritos. Na tentação da “outra mãe”, Coraline assiste tanto a uma apresentação de Spink e Forcibe quanto a dos ratos do Bobo. O que muda são as apresentações, mas a essência é a mesma. Aliás, no jogo de pistas, a semelhança é maior ainda.

Os pais de Coraline também soam mais “exagerados” no filme que no livro. Assim como os vizinhos, no livro eles são normais. De resto, as características também são parecidas. Vale citar uma passagem do livro que não há no filme, ocorrida quando Coraline decide voltar para o outro mundo para resgatar seus pais. Nesse momento, ela conta ao gato sobre uma vez em que seu pai a salvou de picadas de insetos.

Esse é um momento que “humaniza” os personagens e reforça mais ainda como estamos acompanhando tudo pela ótica de uma criança, que acha que seus pais não se importam com ela. Essa ideia é reforçada quando a “outra mãe” engana Coraline, mostrando seus pais verdadeiros “chegando” de viagem e comemorando por não tê-la mais.

O gato preto é um personagem de grande destaque na trama e soa do mesmo jeito que no livro. Misterioso, vive nas redondezas do apartamento e sabe de acessos para o outro mundo, além de já conhecer a “outra mãe”. Ele acaba ajudando Coraline no outro mundo, onde consegue falar. A grande diferença entre as mídias é que no livro Coraline só tem a ele para dialogar e refletir. No filme o Wybie felizmente não rouba seu papel, apenas leva algumas questões para o mundo normal.

Teor diferente

Cena do filme onde Coraline conversa com os fantasmas das crianças.

Como dito, devido ao público do filme, a história acabou sendo aliviada, embora muitos considerem Coraline um “terror infantil”. Um exemplo bem básico é a cena dos besouros. No filme, a “outra mãe” pega besouros de chocolate e come, oferecendo a Coraline. No livro, são besouros reais (ou aparentam ser reais). Uma cena nojenta.

Mas um exemplo que reforça bem melhor essa questão de teor é a cena do espelho, onde Coraline encontra as crianças fantasmas. No livro, Coraline fica solitária e, sozinha, vai comendo sua maçã até acabar tentando não se desesperar. No filme cortaram todo esse momento. E, embora os diálogos das crianças fantasmas tenham peso no filme, inclusive com macabras frases de impacto, no livro é algo muito mais profundo, com altas reflexões sobre a vida, a morte, as memórias, o esquecimento, a existência do ser.

Cenas diferentes

Coraline
Trecho da HQ com momento do livro que não tem no filme.
Arte de P. Craig Russel.

O jogo de Coraline contra a “outra mãe” ocorre de forma semelhante. Os desafios dos vizinhos são os mesmos. A principal diferença é em relação a um dos olhos. No livro, Coraline já começa o jogo encontrando rapidamente o olho em seu próprio quarto através da pedra com um furo no meio. No filme, para criar um desafio, o olho estava junto com o “outro pai” no jardim. A nível de curiosidade, o jardim não existe no livro da forma que é vista no filme.

O “outro pai” demonstra através de algumas quedas uma tentativa de rebeldia contra a “outra mãe”. No filme, quando ele tenta falar algo, o piano dele o cala. No livro, ele mesmo se cala, como se estivesse perturbado e com medo de falar algo que não deveria (e realmente estava). E nesse momento do jogo, ele tenta ajudá-la, mesmo sendo controlado pela “outra mãe”.

O que o filme fez foi inspirado na passagem do livro, onde, durante o jogo, a “outra mãe” entrega uma chave para Coraline para visitar um quarto fechado. Lá, ela encontra um sótão. Ao descer, ela encontra o “outro pai” jogado no chão e um diálogo entre os dois é desenvolvido, reforçando a posição de escravidão dele perante a “outra mãe”. Ele a ataca, mas Coraline consegue fugir. Diferente do filme, aqui ela não recebe nada dele, já que não o resta nada.

Acréscimos

Boneca de Coraline no filme que não existe no livro.

Além do acréscimo de Wybie e de sua avó, já citados anteriormente, algo no filme que não tem no livro é a boneca. Wybie presenteia Coraline com uma boneca idêntica a ela, que posteriormente ela descobre ser os olhos da “outra mãe” para enxergar no nosso mundo. Mais um acréscimo interessante e válido para a história, tentando explicar uma lacuna em aberto no livro.

Curiosamente, por mais que o filme insira novos elementos para a trama, nenhum deles realmente muda o rumo original das coisas, apenas estendendo a história. Isso poderia ser negativo, mas se torna positivo pelo bom uso deles. Tanto é que a morte do “outro Wybie” traz um momento impactante, demonstrando até onde a “outra mãe” pode ir. Nem no livro ela chegou a destruir alguma criatura de sua criação.

Encerramento

Cena do filme onde Coraline presencia o mundo da “outra mãe” se desfazendo.

Basicamente os finais são parecidos, exceto que o filme brinca com a possibilidade de portais para o outro mundo continuarem abertos. No filme também há uma grande comemoração na vizinhança pelo trabalho dos pais de Coraline ter dado certo. No livro não há nada demais, terminando bem “normal”, com Coraline indo dormir, já que no dia seguinte teria aula.

Uma diferença não tão grande é em relação a mão da “outra mãe”, que escapa para o nosso mundo lá para o fim da história. No filme, após o sonho com as crianças fantasmas, Coraline decide por um fim a tudo jogando a chave no poço. No livro, dias se passam, ela vê a mão andando por aí, até que finalmente decide por um fim jogando também a chave no poço. No filme ela acaba recebendo a ajuda de Wybie, enquanto no livro faz tudo sozinha. Nesse ponto fico com o livro, desenvolvendo um clima inquietante.

Demais adaptações

Trecho da HQ. Arte de P. Craig Russel.

Em relação às adaptações, a HQ segue o livro fielmente, talvez salvo alguns detalhes. Apesar de suas longas páginas, acompanhando passo a passo o original, é possível perceber alguns momentos resumidos. O único elemento que senti grande diferença foi no impacto da narrativa, com um peso que soa diferente de quando se lê no livro, já que o conjunto ao todo é alterado.

Já os jogos de videogame, lançados para PS2, Wii e DS, seguem o filme de forma resumida. A trama acaba ficando de fundo, dando lugar a minigames aleatórios que não possuem tanta relação com o geral. É possível notar algumas diferenças, mas nada a ponto de mudar algo relevante na trama. Um exemplo é na versão de DS, que começa com Coraline e seu pai conversando na frente de casa. O que talvez possa ser considerado uma “mudança” válida, mas que na verdade está mais para um corte, é na versão de PS2/Wii, onde o encerramento ocorre logo após a derrota da “outra mãe”, ignorando todo o complemento da trama.

As demais adaptações, como peça teatral e afins, creio não ser oficial e também não conferi, mas fica a curiosidade pelos resultados.

Conclusão

Coraline
“Outra mãe” engolindo a chave. Cena do livro. Arte de Dave McKean.

Num contexto geral, tanto o filme quanto o livro de Coraline possuem enormes semelhanças assim como enormes diferenças. Como dito, os diálogos e os acontecimentos são bem parecidos, salvo detalhes. O livro possui um clima muito mais envolvente e assustador, enquanto o filme soa mais fantástico e visual. O livro vai direto ao ponto, numa narrativa ágil. O filme faz questão de desenvolver cada parte para que o envolvimento pessoal com cada personagem seja maior.

Assim, embora eu prefira o filme por desenvolver melhor a história e acrescentar elementos interessantes, ainda prefiro o clima do livro, assim como algumas de suas passagens. E, por mais que a animação seja fantástica, gostaria muito que fizessem um filme com atores mais fiel ao livro futuramente.