Cinquenta Tons Mais Escuros | Crítica

É fácil odiar um filme quando o analisamos com base no senso comum. Confesso que esperava pouco da sequência, visto que o primeiro filme foi um mar de desagrados. Porém, Cinquenta Tons Mais Escuros consegue trazer os personagens para perto do espectador, colocando realidade nos problemas e defeitos de Grey, Anastasia e outros personagens-chave no longa. E por falar em Ana, a protagonista consegue criar uma relação com o público geral. Os primeiros minutos do filme mostram como é difícil esquecer alguém que amamos e os momentos onde estamos sozinhos e tudo que fazemos parece lembrar aquela pessoa. Anastasia está extremamente focada no trabalho, onde seu chefe parece nutrir alguma espécie de fixação por ela.
Se no filme anterior Christian Grey era um milionário que usava seus próprios traumas como motivo para obter controle e poder sobre Anastasia, aqui temos um Grey mais humano, que admite suas falhas e busca se redimir para Anna.
O longa faz o espectador se perguntar sobre as reais intenções de Christian Grey. Estaria o milionário buscando novas maneiras de obter poder sobre Anastasia, ou teria ele realmente se arrependido de seus atos? Um novo contrato, sem regras é firmado. Meramente ilustrativo, é a maneira que Grey encontra para demonstrar à sua amada que possui sentimentos reais. Jamie Dornan (Christian Grey) é um dos pontos fortes do filme. Sua atuação quase nos faz enxergar, com total transparência, o conflito entre Grey e seus demônios internos. A tarefa de Christian é bem maior do que simplesmente convencer Ana de suas intenções, já que o personagem também precisa conquistar o espectador, que até o final do filme anterior, só havia visto o lado negro do personagem.
Ana se mostra muito mais forte e independente que a versão apresentada no filme anterior. Aqui, ela consegue obter controle quase que total sobre Christian, ao definir exatamente o que quer e quando quer. A atuação de Dakota Johnson pode parecer fraca no início do filme, mas é algo que surpreende o espectador desavisado ao longo da trama.
O desenvolvimento dos personagens já apresentados, equilíbrio do roteiro e a dinâmica entre os personagens conseguem fazer com que o espectador literalmente esqueça todos os defeitos do primeiro filme, como se o mesmo só tivesse servido para introduzir os personagens e nos dar uma ideia da existência de alguns conceitos. O lado doentio de estar sob a influência de um dominador também é tratado com certa profundidade, principalmente através de Leila Williams, uma antiga submissa de Grey, que apresenta uma semelhança inacreditável com Ana.
A atuação de Bella Heathcote como Leila reforça a fragilidade que dominadores como Grey sentem a necessidade de explorar em suas submissas. A instabilidade emocional e as atitudes da personagem fornecem uma bela subtrama para o longa, que infelizmente, dura pouco, e que traz impactos relativamente sutis, que o espectador mais desatento não deve conseguir captar ao ver o filme pela primeira vez. O papel de Leila é maior que ser apenas uma vítima, como sugere a cena onde a personagem está no apartamento de Anastasia.
A necessidade é uma palavra bastante explorada durante a trama. As necessidades físicas e emocionais conseguem ser equilibradas com o peso que deveriam ser tratadas no primeiro filme, que falhou em passar a real importância do background dos personagens. Aqui, o filme não tem medo de exibir que há mulheres que buscam relacionamentos por fama, dinheiro e prazer, enquanto há pessoas como Ana, que preferem seguir seus próprios conceitos a se tornarem meras marionetes nas mãos de algum homem, independente do poder aquisitivo do mesmo. Ana não está só mais resistente no físico, mas também possui um pensamento mais crítico e uma mente mais forte. Seus sentimentos por Grey, porém, podem ser uma ameaça à sua vida profissional e seu emocional. Cabe a ela e ao espectador decidirem até onde ir, e não mais a Grey.
O erotismo está presente durante boa parte do filme, equilibrando o tom dramático, e muitas vezes de mistério, que as subtramas trazem para o longa. Somos novamente apresentados aos “acessórios” que Grey utiliza com Anastasia. A diferença é que Anna sabe muito bem onde está e onde quer estar, e consegue limitar as ações de Grey, quase como se os papéis estivessem se invertendo, algo que seria interessantíssimo de se explorar em um terceiro filme. As cenas de sexo não são tão desagradáveis e fora de lugar como no filme anterior, onde o roteiro muitas vezes parecia uma desculpa das mais fracas para ligar cenas de sexo aleatórias.
Há, porém, uma ou duas cenas de sexo que levam a questionar “por que agora?”, mas que são facilmente esquecíveis conforme a trama se desenrola. Toda a sequência do baile serve bem para exemplificar o que estou dizendo, já que a curta cena de sexo é apagada pelos diálogos entre a família de Grey e o casal, além do esperado primeiro confronto entre Anastasia e Elena, a antiga dominadora de Grey. É nessa cena que começamos a entender um pouco melhor o drama que Christian viveu em sua infância e adolescência, ao ver que Elena é a nova figura vilanesca da franquia.
O longa também deixa a dúvida: estaria Grey dominando Ana, ao deixar que a mesma pense que é livre para escolher e fazer o que quer? Grey pode muito bem estar completamente obcecado pela garota e pela dificuldade em dominá-la, um traço que nenhuma das submissas anteriores foi capaz de exibir, uma resistência que ele só foi capaz de alcançar após se livrar da dominação de Elena, a mulher que criou seu inferno pessoal.
A trilha sonora não decepciona. Na verdade, empolga. Cada faixa se encaixa perfeitamente com os momentos da trama. A música “Not Afraid Anymore” foi um tiro certo para a cena do Quarto Vermelho, onde Ana entra por conta própria e desafia os pré-conceitos de Grey sobre ela. Danny Elfman volta a compor a trilha original, que apesar de não ser nada fora do comum, não está aquém dos outros trabalhos do compositor.
Por fim, o filme consegue demonstrar com perfeição que cada um dos personagens possui muitas faces e máscaras a serem mostradas. A química entre Ana e Grey ainda precisa melhorar, embora já esteja consideravelmente mais desenvolvida que no filme anterior. Muito disso se deve ao fato de que a produção parece finalmente ter encontrado o tom para a franquia, e não precisa esfregar os corpos dos atores na cara dos espectadores para obter atenção. Se o terceiro filme mantiver a qualidade de roteiro do segundo, não teremos uma obra prima cinematográfica, mas certamente não teremos um filme tão ruim quanto o primeiro.