A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell | Crítica

Com CGI atrativo e algumas cenas exatamente iguais ao longa animado de 1995, os trailers da adaptação da obra cyberpunk Ghost in the Shell já mostravam que, talvez, Hollywood finalmente havia acertado numa adaptação de origem japonesa (embora já tivessem acertado antes). Mas também poderia ser uma bomba, e não apenas pelo vasto histórico de produções vergonhosas, mas pelo peso da obra original. Felizmente o resultado final foi agradável, mas não satisfatório.
A história original foi escrita por Masamune Shirow em formato de mangá, em 1989, do qual o filme diz ser baseado, embora esteja claro que puxaram mais o anime. Shirow se inspirou bastante em Blade Runner (1982) para construir seu universo. É uma trama que envolve o conceito de vida atrelado à tecnologia de forma tão profunda e complexa em meio a humanos e ciborgues, indagando sobre o real significado sobre a vida ou questionando a própria existência. A adaptação em anime de 1995 posteriormente serviu de forte inspiração para a famosa trilogia Matrix. Estamos falando de uma obra revolucionária que inspirou outra obra revolucionária que inspirou outra obra revolucionária. Nesse quesito, a adaptação americana fez jus a isso? Nem um pouco, mas ainda entregou um bom filme.
Dirigido por Rupert Sanders (Branca de Neve e o Caçador), o longa se passa em 2029, onde a tecnologia evoluiu, há diversos hologramas pelas ruas e as pessoas fazem “melhorias” no corpo, vulgo implantes cibernéticos. A protagonista do filme é Major (Scarlett Johansson), que teve seu corpo destruído após um acidente, mas seu cérebro sobreviveu, mantendo assim sua ‘humanidade’ em seu novo corpo robótico. A todo momento ela se questiona sobre ser humano e sobre as máquinas. Ela comanda a Seção 9 de uma equipe especializada em crimes cibernéticos. O chefe da equipe é Daisuke Aramaki (Takeshi Kitano), o único que fala japonês no longa. Major ainda conta com a ajuda de Batou (Pilou Asbæk), que está sempre ao seu lado. Diferente do vilão da obra original, aqui temos um vilão que surgiu num dos derivados da franquia japonesa: Kuze (Michael Pitt), alguém misterioso que quer acabar com a empresa que criou a Major.
Basicamente o longa acompanha Major atrás de Kuze enquanto se questiona sobre a vida, dividindo-se entre longas cenas de diálogos e cenas de ação. E é um questionamento bem “básico” se comparado a obra original. O longa fica na mesma tecla o tempo todo. O quanto da Major é humana? Ela pertence a que grupo? Se ela é robótica, ela é igual aos outros robôs? Se ela é diferente, o que a torna diferente? Tudo se volta para Major. O foco é na Major. Mesmo com as reviravoltas marcantes, que trazem novos rumos para a trama, a insistência em se manter no mesmo questionamento chega a cansar. Claro, levando em conta que foi um filme feito para o público em geral, dá para entender.
Assim como no longa de 95, por mais que a versão hollywoodiana tenha mais ação, o filme não exagera e nem se resume a apenas isso. Não há tanta ação assim se considerarmos a duração total do longa, o que pode desagradar parte do grande público que não gosta do assunto (ainda mais se considerarmos que está sendo vendido como um blockbuster de ação). É um blockbuster diferenciado, arriscado, e que, de certa forma, deu certo. Mas voltando à ação, há boas cenas, como a da gueixa robô e a perseguição após o caminhão de lixo.
Ghost in the Shell já conta em sua franquia japonesa com diversos mangás, filmes, animes, etc, passando de mais de 10 produções, todas enriquecendo o vasto universo criado com o mangá. Em meio a eles, a adaptação americana se encontra como uma versão recente, que só o tempo dirá se ficará marcado ou não. Hollywood entregou um bom filme, com a essência fiel ao original, boa trama, bons personagens e ainda fez fanservice ao inserir cenas semelhantes. Só faltou se aprofundar no tema, ‘desculpado’ pela questão de público.