Poder escrever sobre The Matrix é um verdadeiro privilégio e também uma baita responsabilidade. Falar da filosofia, da inovação cinematográfica e chamar a sua atenção para um filme que já tem seus 20 anos é uma missão e tanto!

Seja como for, não poderia deixar passar em branco uma data tão importante para os fãs de ficção científica e do cinema como um todo. The Matrix revolucionou seu gênero e conquistou fãs ao redor do planeta como um dos primeiros grandes blockbusters já produzidos.

Embarque nessa jornada que mostra o quão deturpado é o nosso futuro na visão das Watchovski e entenda como o presente já condenado do filme é um paralelo ao que vivemos todos os dias. Está pronto? Então, vamos nos conectar!

Final dos anos 90: The Matrix começa a tomar forma

Se hoje, com o cinema de super-heróis tão bem consolidado, fazendo bilhões de dólares em poucos dias, a Warner Bros. considera arriscado investir em algo novo, mais autoral e original com os próprios personagens da DC, imagine lançar um filme 100% original em 1999?!

Pois é, e o estúdio estava preocupado. É difícil dizer quando as Watchovski, na época, Andy e Larry, começaram a criar o conceito de The Matrix, mas de certo foi algo bem complexo e desafiador, já que a trilogia de Neo e seus colegas revolucionários unia filosofia, distopia da ficção científica no melhor estilo cyberpunk e efeitos especiais de ponta.

A proposta era arriscada, e em 1998 o estúdio estava um pouco preocupado com o andamento do projeto. Foi aí que Joel Silver apareceu com cerca de 600 páginas de storyboards e 8 minutos de material do filme. The Matrix era um verdadeiro espetáculo, e o mundo sequer estava pronto para algo naquele nível.

Era o começo dos anos dourados da Warner Bros., que mais tarde ainda apareceria com a franquia de Harry Potter e o Senhor dos Anéis. Com The Matrix, não seria diferente, não ia ter para ninguém e o filme seria um estouro… A menos que não conseguissem emplacar um ator de peso para o papel principal, certo?

The Matrix
Pode vir, Hollywood!

Com nomes como Will Smith, Johnny Depp e Brad Pitt recusando o papel por razões diversas, o estúdio considerou a talentosíssima Sandra Bullock para o papel de Neo, que seria adaptado… Acabou que só sobrou um nome meio vago, sem muito brilho, que mais tarde seria um ator insubstituível em Hollywood: Keanu Reeves.

A Warner queria Reeves no papel de Neo? Não.

O público pediu por ele? Também não.

Ninguém, a não ser as Watchovski, tinham noção de que o jovem Keanu Reeves era exatamente o que o filme precisava para ser o fenômeno que é hoje. Some Reeves a Lawrence Fishburne, filosofias e críticas sociais, uniformes de couro, muito preto e muito verde e voì lá: The Matrix estava aí para ser apreciado por todos.

Original, mas cheio das referências

É verdade, Matrix é uma obra original das Watchovski, mas não dá para negar que o filme se sustenta em bases já consgradas do gênero Cyberpunk – o que mostra o quanto a dupla por trás da direção fez o seu dever de casa e sabia o que estava fazendo.

Akira
Akira.

Akira, Ghost in the Shell, Neuromancer, Blade Runner, Os Invisíveis, Simulacres et Simulation, H.P. Lovecraft e muitos outros mais (provavelmente até Blade, da Marvel)  foram as inspirações estéticas e narrativas que The Matrix utilizou para criar esse universo rico abordado na trilogia de filmes, em sua série animada e jogos complementares.

The Matrix
Lovecraft levantou do túmulo para escrever essa cena. The Matrix © Warner Bros.

Chega a ser poético que um filme de tanto sucesso tenha se inspirado em um fracasso comercial como Blade Runner – que ao mesmo tempo, tornou-se um clássico instantâneo e adorado por fãs da ficção científica, algo que viria a se repetir com a sequência, Blade Runner 2049, décadas mais tarde.

Para quem nunca viu nenhuma das obras mencionadas acima, não leu um livro de ficção científica e não conhece autores como Masamune Shirow, Katsuhiro Otomo, Philip K. Dick, William Gibson ou o mestre do terror H.P. Lovecraft, pode ser difícil perceber as referências visuais e narrativas, muitas vezes súbitas – mas detalhes do futurismo oriental são facilmente percebidos. Até porque aquelas “letrinhas verdes” características de The Matrix estão todas em japonês!

The Matrix
Aposto que você ainda não tinha reparado nisso, heheheheh!

O legado de The Matrix para o cinema

The Matrix revolucionou o cinema não só por trazer uma trama cheia de filosofia e distopia, mas também efeitos especiais e coreografias de luta que deixaram todos boquiabertos desde o seu lançamento. Não é à toa, já que era quase possível sentir a pancadaria.

Yuen Woo-Ping é o principal responsável pelas cenas de luta. O coreógrafo foi tão bom com Matrix, que depois colaborou com Kill Bill, de Quentin Tarantino.

Os visuais dos personagens, o couro, a estética futurista, com uma pegada meio que noir, também inspiraram os X-MEN de Bryan Singer. O “efeito Matrix”, que na verdade se chama bullet time, foi aprimorado e usado com peso na trilogia das Watchovski, e se tornou extremamente popular em outros filmes e jogos.

Snyder se inspirou em Matrix e na batalha entre Shazam e Superman da animação da Liga da Justiça para criar a luta entre Superman e Zod em Homem de Aço.

Houveram inspirações e até tentativas de imitar Matrix de forma descarada, como foi o caso de Equilibrium, filme de 2002 protagonizado por Christian Bale, onde ele é basicamente o Neo em um futuro totalitário e distópico. Zack Snyder honrou o legado de Matrix com seus filtros escuros, estética e efeitos especiais em Watchmen, Sucker Punch e até mesmo em Homem de Aço e Batman vs Superman.

O trailer de Equilibrium é horrível, mas o filme é bem legal.

O segredo por trás da Matrix

Ninguém conseguiu replicar o fenômeno que The Matrix foi e é, e mesmo as sequências Reloaded e Revolutions não foram tão bem recebidas quanto o filme original, embora sejam boas continuações (ok, Revolutions é meio fraco).

Muito disso se dá porque os cineastas não entendem exatamente o que torna The Matrix uma obra única. Não é o visual cyberpunk, não é o couro, não são as lutas. Tudo isso se junta numa mistura épica protagonizada por Keanu Reeves, sim, mas o segredo não está aí.

The Matrix

O que torna as obras que serviram de base para Matrix tão únicas é justamente o que faz do filme das Watchovski algo diferente de tudo: os personagens estão lutando para mudarem suas próprias vidas, suas realidades, e talvez não tenha absolutamente nada especial sobre elas.

Sim, tem todo o lance de Neo ser O ESCOLHIDO e coisa e tal, mas essa própria expectativa é quebrada já no primeiro filme pelo Oráculo. O espectador que escolhe acreditar se os personagens realmente têm o poder de mudar tudo. E, cá entre nós: eles não têm!

Neo era UM escolhido, e a Matrix continuará com ou sem ele. Todo o detalhe de as pessoas ESCOLHEREM viver na Matrix por ser mais fácil reflete escolhas que fazemos no dia a dia, e mesmo que algumas pessoas tentem quebrar o sistema constantemente, ele é forte, está sustentado por esperanças, sonhos, expectativas sustentadas por indivíduos que acreditam nos seus próprios destinos.

O que faz de Trinity, Morpheus e Neo diferentes daqueles que vivem na Matrix por escolha própria?

Você é capaz de responder? Agora, o que os torna iguais?

Escolher a pílula azul ou a vermelha não importa. Seja qual for a sua escolha, a realidade alternativa seria insuportável para você, e por isso, você tomou a sua decisão. Os mundos de The Matrix são exatamente como os nossos, basta olhar bem de perto!

The Matrix

Além de The Matrix

A obra não se conclui em apenas 3 filmes. Pelo contrário! Existem jogos, quadrinhos e até uma série animada que expande os conceitos apresentados nos filmes.

A série animada é The Animatrix, uma antologia que segue paralela aos acontecimentos dos filmes. Enquanto isso, temos Enter The Matrix, jogo que é dirigido pelas Watchovski e que expande a história da trilogia, além de The Matrix Online, um MMORPG que durou alguns anos, também no universo dos filmes, e o jogo que ganhou mais popularidade por trazer Neo, Matrix: Path of Neo.

Animatrix
Animatrix

A franquia segue firme e forte nos corações dos fãs, assim como aconteceu com Blade Runner, Star Wars e diversas outras franquias aclamadas. A Warner tenta, sem o envolvimento da equipe original, dar continuidade à franquia, mas seja por intervenção divina ou pelo bom senso de algum executivo, o projeto parece nunca ir à frente. Matrix sem Watchovski é somente mais um caça-níquel hollywoodiano.

Agora que você terminou de ler este Geekalizando, aproveite e leia mais sobre o gênero Cyberpunk que inspirou The Matrix, Akira, Ghost in the Shell e Blade Runner, clicando na imagem abaixo:

Cyberpunk: uma viagem ao fantástico, distópico e assustador futuro!