Como leitores, alguma vez vocês odiaram um personagem que não conseguiram compreender? Não sei, talvez seja irresponsabilidade da minha parte ter julgado tão mal o jovem Holden Caulfield, mas a questão é que ele me irritou e me provocou tanto, até que me vi obrigada a mudar completamente o meu olhar para enxergá-lo de uma outra forma. Por um lado foi ruim, porque cheguei no ponto de não estar satisfeita com a leitura, por outro foi muito bom, porque, quando eu terminei, eu tinha uma outra visão sobre a vida.
O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D.Salinger, é praticamente um clássico norte americano. Livro importantíssimo pra cultura do país, está na lista das histórias preferidas de nomes como Woody Allen. Além de ter servido de inspiração para diversos filmes, personagens e músicas. Também tem certo ar de mistério, já que acabou influenciando o assassino de John Lennon.
De forma sutil e ao mesmo tempo densa, acompanhamos uma semana na vida do adolescente Holden Caufield, que foi expulso do colégio e perambula por Nova York com receio de voltar para casa e ter de encarar os pais. É só isso (pra quem acha que vai acontecer algo extraordinário e surpeendente, não vai!). Mas não é como se o observássemos andando pelo Central Park como se vê um desconhecido qualquer, é como se estivéssemos dentro dele, participando a todo instante de seus pensamentos e analisando traços da sua personalidade.
A história é tão simples e pacata que ao ler eu não conseguia sentir nada, nem um pingo de emoção, para mim era como cumprir mais uma tarefa do dia, isso porque abandonar o livro seria um disserviço muito grande com o meu pai. Ele trocou nada menos que 40 livros de sua coleção pessoal num sebo por essa edição usada de O Apanhador, que, nas livrarias, não tem por menos de 80 reais. Ou seja, resistir a essa leitura era um sinal de respeito.
Mas foi esse respeito que me fez permanecer em algo que, no final, valeu a pena e eis aqui o porquê. Eu, egoísta e incapaz de me identificar com a personagem, a princípio não entendia as suas angústias, logo que comecei o livro achei ele um saco; pelas gírias que usava com frequência, pelo desdém e a forma como falava das pessoas, pelo profundo desinteresse por tudo e todos, pela falta de sensibilidade exacerbada, pelas suas idiotices e tantas outras características.
Holden é um jovem sem carisma, angustiando eternamente numa camisa de força social. Mas afinal, quem é que não está vivendo essa angústia e pode condená-lo? Por mais que os meus anseios íntimos não sejam os mesmo que os dele, eu também sinto o deslocamento em meio as pessoas, eu também chego a pensar, vez ou outra, que nada faz sentido, que a vida é banal.
Fugir? Várias vezes planejei, não para assustar alguém, menos ainda pra chamar a atenção, mas às vezes a gente sente uma vontade louca de desaparecer ou ir para um lugar diferente e solitário. Houlden é desses loucos que costumam decidir tais coisas de súbito, mas como sempre, e como todos nós, ele continua parado exatamente no mesmo lugar, enquanto a mente dele vagueia por momentos irreais.
Muitos irão dizer que ele é o símbolo máximo da adolescência incompreendida, que teme e abomina o mundo adulto, que sofre as mazelas da juventude, e ele até representa bem um sentimento ou outro da geração, mas a verdade é que Holden é muito diferente. Ele não é como qualquer um, despreparado pra vida – pelo menos não completamente – e é ruim comparar seus questionamentos profundos a meros medos da fase de transição. É possível se identificar com Holden em muitas etapas da vida.
A verdade é que a vida nos obriga a certas coisas, vivemos como vivemos não porque queremos, mas porque há, íntimamente, uma obrigação quase sobrenatural para que nos comportemos de uma forma padronizada: nascer, viver uma vida desejando objetos, mudanças, nos relacionando com pessooas que (muitas vezes) não nos interessam, aperfeiçoando nossa personalidade de modo que ela se adeque em algum espaço no mundo, onde poderemos nos desenvolver; estudar, trabalhar, fazer “amigos”, ter uma família e criar o nosso estado de felicidade e plenitude, onde todas essas necessidades se esgotam e se renovam.
E é por isso que Holden é tão irritante algumas vezes (para mim), porque ele foge de tudo isso, reduzindo a nada todas essas pequenas ações que constituem o que conhecemos como “viver”, aquilo que nos esforçamos todos os dias para atribuir algum significado, para ele não quer dizer nada. E no final todos nós sabemos que é verdade, mas relutamos em aceitar essa ideia, porque esse seria um forte motivo a nos guiar por uma depressão sem volta. Aliás, tudo tem a capacidade de deixar Holden “um bocado depressivo” e é somente escrevendo isso que percebo a manifestação do mesmo sentimento em mim.
É essa capacidade incrívelmente louca que o livro tem de criar um distanciamento com o leitor, para só depois, se aproximar como um espelho da face da alma, de modo que quanto mais reflitimos, mais enxergamos o quanto Holden faz parte de nós, que é o motivo pelo qual o livro é tão impactante e pode mexer com as pessoas de diversas formas diferentes. Até mesmo despertando nelas sentimentos ruins e negativos sobre o mundo ou, vez outra, de paz e tranquilidade.
Porque o que todos nós devemos admitir é que, apesar de aceitarmos aquilo que a sociedade impôs quase naturalmente, as inquietações habitam as camadas mais profundas do nosso inconsciente. Mas não é como se pudéssemos acordar um dia e desistir da faculdade, dizer o quanto não suportamos os colegas, as pessoas ao redor, esquecer que precisamos de dinheiro para sobreviver, não cuidar mais da aparência e ficar sem fazer nada pra sempre, até a hora da nossa morte. Dá para viver de muitas formas diferentes, mas, sem dúvida, essa não é uma opção.
Acredito que seja por essa e outras razões que Holden vê tanta alegria e ternura nas crianças, seus momentos de maior satisfação é quando ele avista uma, cantando, dançando, sorrindo, saltitando ou qualquer coisa que o valha, pois a infância é a única fase da vida onde a felicidade é um estado puro, verdadeiro e constante. Mesmo que nunca mais sejamos capazes de lembrar desses momentos com detalhes.
E é justamente para preservar essa pureza que Holden quer simplesmente sentar-se a beira de um abismo, para impedir que as crianças que brincam ao redor caiam dentro dele. E essa seria a única coisa que ele gostaria de fazer em toda a sua vida, ficar lá, sentado, observando e zelando para que nada de ruim aconteça com elas. É quase o papel da figura divina. Ali, no campo de centeio, ele não teria que se preocupar com mais nada, nunca mais. Não teria que se preocupar com a sua própria vida e as insignificâncias da rotina.
Só lendo até o final, que você leitor conseguirá absorver as ideias apresentadas na história e, após pensar muito nelas, é que vai extrair do todo o melhor sentimento que te representa. Eu extraí dessa longa caminhada de Holden Caulfield por Nova York uma lição de valores. Valorizar as coisas simples, que para nós não possuem significado algum: como uma conversa despretensiosa com alguém que se encontrou na padaria, uma tarde de risadas, uma criança cantando, um sorriso aleatório e o desapego de tudo aquilo que não me é essencial a alma.
Apreciei ainda mais a honestidade. Se existe algo que posso afirmar que me cativou em Holden foi a sua sinceridade profunda, o seu senso de integridade que faz com que ele respeite a si próprio e recuse as falsidades do real. Ele mente muito durante toda a história para todo mundo que o cerca, mas ele nunca mente pra si próprio e isso é admirável, já que, constantemente, as maiores mentiras que contamos são para nós mesmos.
O melhor livro não é necessariamente aquele que te agrada, mas aquele que de alguma forma te transforma, te afeta sem que você nem saiba o por que. É maravilhoso quando a obra permite que você leia a si mesmo em alguns capítulos da sua história. Ás vezes o nada é a única coisa que faz sentido e a única sensação de paz que realmente podemos ter.