Okja | Crítica

Movido a polêmicas, Okja causou uma enorme confusão no Festival de Cannes, não pelo conteúdo do filme, mas pela produção Netflix. Um longa feito para um serviço de streaming estreando no cinema? O suficiente para que vaias ocorressem e o filme fosse proibido de estrear nos cinemas de alguns países do qual estava programado. Ironicamente, após a exibição, Okja foi ovacionado. Os críticos gostaram e precisaram engolir o ódio pela diferença de plataforma. Não que isso tenha impedido os boicotes dos cinemas.

Bong Joon-Ho é o diretor do longa. Famoso de longa data na Coreia do Sul, já dirigiu e roteirizou filmes como Memórias de um Assassino (2003), O Hospedeiro (2006) e Expresso do Amanhã (2013), sendo esse último conhecido mundialmente graças ao elenco internacional de peso. De acordo com ele, a escolha da Netflix como produtora foi devido a falta de liberdade sobre Expresso do Amanhã, chegando a ter que cortar várias cenas do longa para o mercado ocidental.

Querendo liberdade para sua produção, inspirado com pensamentos sobre a escolha do ser humano sobre que animal comer e que animal ser amigo e vivendo num país considerado por ele o “paraíso do churrasco“, para seu novo filme ele decidiu contar uma história de uma garota e sua porca que veem sua amizade ameaçada pela indústria alimentícia. O porco, de acordo com ele, é o animal mais relacionado a alimentos, por isso a escolha. A produção do filme, inclusive, o impactou ao ponto dele passar a comer apenas carne de peixe e frutos do mar. Mas isso abordarei mais ao final. Vamos para a crítica.

Como se fosse um live-action do Studio Ghibli (inclusive há referências, como Totoro), Okja se inicia em 2007, nos Estados Unidos, onde Lucy Mirando (Tilda Swinton), dona da empresa Mirando, explica sobre seu projeto de diminuir a fome no mundo através de superporcos. O projeto de 10 anos envolve mandar 26 superporcos, um para cada país, para que sejam cuidados por fazendeiros e cresçam. Uma década se passa e o longa vai para a Coreia do Sul, onde acompanhamos a tranquila vida da simpática garota Mija (Ahn Seo-Hyun) e a superporca Okja, que dá nome ao filme. Mija (ou Mikha) vive com seu avô e a porca até que uma equipe de televisão chega para filmar a porca num programa apresentado pelo insuportável doutor Johnny Wilcox (Jake Gyllenhaal). Só que tudo faz parte do plano de levar Okja embora. Desesperada e se sentindo traída por seu avô por não ter avisado, Mija decide fugir de casa e ir atrás de Okja. Se antes o clima do filme era tranquilo, a partir daí as coisas começam a mudar.

Num vai e vem de acontecimentos, onde uma coisa leva a outra como um efeito borboleta, o filme vai mudando de clima e Mija demonstra ser uma forte personagem. Ela acaba recebendo ajuda da ALF (“Frente pela Libertação Animal” em português), um grupo que, como o nome diz, luta pelos direitos dos animais. Liderada por Jay (Paul Dano), a equipe é composta por K (Steven Yeun), Red (Lily Collins), Blond (Daniel Henshall) e Silver (Devon Bostick). Juntos, eles tentam impedir a empresa Mirando de matar Okja.

Enquanto o grupo da ALF age, o longa também acompanha a empresa Mirando lidando com toda a situação. As cenas de diálogos são interessantes e mostram Lucy conversando com outras pessoas de sua empresa sobre o que fazer e como se aproveitar da situação. É o outro lado da história. A questão de herói e vilão ainda não está desenvolvida, apenas lados de uma situação envolvendo um caso inusitado de uma garota que quer salvar a preciosa porca, justamente a considerada a melhor do projeto.

O roteiro, apesar das reviravoltas, possui seu lado previsível e alguns “furos” para facilitar alguns acontecimentos na trama. Nada que atrapalhe a experiência e também nada mal feito, já que o resultado compensa qualquer problema e é bem trabalhado. Numa mistura de gêneros, alternando entre aventura, ação, drama e comédia, Okja demonstra o estilo sul-coreano de se fazer filmes e resgata elementos já utilizados pelo diretor em algumas de suas produções anteriores, principalmente O Hospedeiro. Unindo-se com a alternância entre cenas em coreano, em inglês e até mesmo os dois, o longa acaba por realizar um encontro de personagens de países e línguas diferentes (como visto levemente em Expresso do Amanhã) e ainda se aproveita disso para a trama, não deixando ser um mero detalhe. Como os personagens da ALF dizem: “Tradução é sagrado“. Que indireta.

Conforme o longa vai chegando à sua conclusão, mais as coisas vão ficando sérias. Durante o longa, questões sobre os animais como forma de alimentação são debatidos, mas não gratuitamente e apenas nos momentos certos. Por parte do grupo, eles defendem seus motivos para os animais não serem comidos. Por parte da empresa, vemos o lado comercial da história. Na verdade a empresa pouco está se importando para a questão de comer ou não comer, mas sim de vender e agradar o público.

Vale observar que, assim como as atitudes do diretor de mudar seu hábito, o filme não é exatamente uma crítica ao fato de comer ou não carne, mas sim ao modo que a indústria alimentícia trata os animais. Ora, qual a diferença de deixar de comer um porco, mas comer peixe? A resposta está justamente no tratamento que o animal recebe antes da morte. Tudo depende do ponto de vista. O objetivo do longa não é impedir ninguém de comer carne (o elenco mesmo não parou), mas sim de se atentar mais ao mercado e aos animais. Existe uma grande diferença entre a empresa que mata o animal a base de tortura e a empresa que mata seguindo normas para uma morte indolor.

A ideia de apego ao animal é humano. O porco é apenas um dos vários exemplos de animais. Assim como gostamos de brincar com cachorro, tem gente que gosta de comê-los. Assim como comemos vaca, tem país onde o animal é sagrado. Reforço a ideia do filme não ser uma crítica direta ao consumo pessoal com um detalhe: A protagonista do filme comia frango normalmente ao mesmo tempo que amava sua porca. Outros motivos que já expliquei ao longo do texto. Logo, cada um tem sua visão sobre quais animais comemos ou deixamos de comer para nos tornarmos amigos.

Dentre a vasta crítica que o filme faz a indústria alimentícia, indo além do apego e os maus-tratos, há também a questão das experiências genéticas, onde a empresa Mirando afirma que os super porcos são naturais, mas a ALF afirma que são frutos de manipulação. Para não correr o risco de spoilers, considere que o filme abrange esse lado, mas, pelo fato de “super porco” acabar gerando um costume e soar natural, durante boa parte da trama passa a impressão de ser apenas mais um detalhe em meio a todos os problemas existentes na indústria, mesmo estando sempre presente. O impacto vem quando o filme decide se focar nisso.

Ao fim, Okja se torna uma grande aventura com uma grande crítica. Com um início explicativo e promissor, o longa tende a melhorar com o passar do tempo. Sua boa estrutura, história envolvente, personagens carismáticos (em parte) e escolha de atores fez até mesmo os críticos que vaiaram a produção por ser Netflix (claro que há motivos maiores envolvidos) a se redimirem e confessarem a qualidade da obra. Numa mistura de gêneros, Okja diverte, reflete e abre mais espaço para o cinema sul-coreano e, quem sabe, mais uniões entre países tão diferentes nos filmes.