Talvez pela falta de destaque recebido pelos veículos de informação, poucos sites da cultura nerd ou a mídia especializada dar pouco enfoque a isso, fica a impressão de que, no Brasil, existem poucos quadrinistas desenvolvendo trabalhos que mereçam um olhar atento, que escapem do eixo de nomes de grandes artistas como Maurício de Sousa, Mike Deodato Jr, entre muitos outros nomes.

O entrevistado de hoje é o ilustrador e quadrinista Max Andrade, duas vezes vencedor do prêmio internacional SILENT MANGA AUDITION Grand Prix Runner Up, também autor de TOOLS, o seu mais longo trabalho independente, que ganhou espaço em uma editora recentemente.

Sendo assim, confira, na íntegra nossa entrevista com um dos novos integrantes do cenário de quadrinhos nacionais!


QUEM É MAX ANDRADE?

Desde criança, Max Andrade tinha grande apreço por desenhos e animações japonesas. Com isso, despertou um forte interesse em desenhar e desenvolver histórias em quadrinhos e mangás.
Após alguns curtas e a publicação independente de seu primeiro trabalho oficial, TOOLS, Max Andrade, aos poucos, conseguiu um pequeno número de fãs e admiradores de sua obra, que ao longo do tempo se estenderam a um bom número, resultando na publicação do primeiro mangá nacional financiado pelos fãs, algo considerado até hoje como um feito inédito quando se trata de publicações de artistas nacionais nos mangás.

Posteriormente, após a publicação de outros trabalhos e dando sequência a TOOLS, de maneira independente, Max participou do concurso internacional SILENT MANGA AUDITION na edição de 2016, sendo um dos vencedores e tendo como um bônus conheceu a equipe da Coamix, ganhou a publicação da história no site do concurso, uma viagem com tudo pago para o Japão e todo o suporte para ter o seu trabalho reconhecido.


Atualmente o ilustrador e quadrinista segue participando das atuais edições do concursos do SILENT MANGA AUDITION, sendo mais ousado, ele acaba de vencer pela segunda vez este concurso na categoria MASTER CLASS, e novamente viajou para as terras nipônicas, além de ter inciado a publicação de TOOLS numa editora nacional e se empenhado junto com colegas e vencedores do concurso a ajudar outros desenhistas e jovens aspirantes que almejam participar e vencer o concurso.

Durante a entrevista, Max comentou sobre suas inspirações para desenhar e produzir histórias, o seu primeiro prêmio do SILENT MANGA AUDITION, como enxerga o cenário dos artistas nacionais, suas adversidades e um pouco sobre seus planos futuros.

O que os quadrinhos representam na sua vida?

Bom, representam tanto que nem sei dizer como seria minha vida sem eles. Seria como perguntar como seria minha vida sem a audição, sem um braço. (risos) Estou envolvido completamente com eles.

Quando começou o seu fascínio por quadrinhos e mangás? Recorda-se de qual foi o primeiro mangá / HQ que leu?

Desde sempre. As primeiras lembranças que tenho na vida envolvem quadrinhos. Meu pai colecionava e eu estive rodeado deles desde que me lembro. A primeira HQ eu não lembro. Provavelmente foi alguma da Turma da Mônica. Mas o primeiro mangá foi Dragon Ball, quando a Conrad lançou em 2000.

Qual foi o mangá/ HQ que mais marcou sua vida? Por que?

Dragon Ball, por ter sido o primeiro mangá, e por ser uma excelente obra. Claro que tenho muitas outras influências, mas DB foi o condutor pro que existe hoje na minha vida.

Quais os artistas e pessoas que o inspiraram e influenciaram em suas obras e pessoalmente como quadrinista/mangaká? Qual a peculiaridade em cada autor?

Sempre que tenho que responder sobre influências, dentro e fora do mundo dos quadrinhos, digo que vou me limitar a falar de alguns pontos principais, porque eu sou influenciado por muitas coisas e pessoas diferentes.

Portanto, a influência pessoal com certeza é do meu pai, que comprava HQs desde que eu nasci, e entre os autores que mais gosto, os principais seriam o Masanori Morita, Takehiko Inoue, Mitsuru Adachi e Yoshihiro Togashi. É realmente uma lista muito difícil de fazer porque deixo muito de fora…

Pra cada um deles eu tenho um ponto específico que gosto mais, apesar de gostar do trabalho como um todo. O Morita é gênio nas expressões faciais e corporais, o Adachi tem uma ambientação e sensibilidade narrativa maravilhosa. Inoue – que muita gente aqui gosta – é um mestre do traço, e o Togashi tem uma criatividade impar. Dá vontade de ficar falando disso por horas! (risos).

O que o motivou a fazer quadrinhos?

Minha maior vontade sempre foi causar os sentimentos que as obras que li quando mais novo causavam em mim. Transmitir sentimentos, emoções, motivação pros leitores, como um bom shonen faz.

Quais as maiores dificuldades que enfrentou e enfrenta até hoje na produção de suas obras?

Acho que o lado financeiro. Temos muitas dificuldades, mas como eu não nasci em uma família rica, esse lado pesa muito. A maioria dos quadrinistas brasileiros – tipo, quase todos mesmo – não vivem só de quadrinhos, e quando vivem, uma fração da fração vive de seus trabalhos autorais. Logo, tenho que trabalhar (com desenho, mas não de HQs) pra me sustentar e depois mexer com os quadrinhos. Some isso à divulgação, vendas, cuidar da case e etc e vira uma jornada quádrupla facilmente.

Acredita que as editoras nacionais deveriam dar mais espaço para os artistas brasileiros?

Complicado. Acho que temos que analisar todos os lados. As editoras tem que ter cuidado no que investir. Às vezes depende muito de outros fatores. A Panini, por exemplo depende de contratos e acordos internacionais. As maiores editoras tem medo de investir porque o retorno não é muito certo, já as pequenas investem tudo que podem, mas tem que jogar de acordo com o possível.

Falando agora sobre suas obras, gostaria que comentasse sobre TOOLS. Como se deu sua criação?

Eu trabalhei por 4 anos em um depósito de ferramentas. Lá, juntei a vontade de fazer um shonen de porrada com torneio com o ambiente em que eu vivia. A maioria das ferramentas grandes do mangá existem daquele tamanho de verdade!

Quais eram as expectativas para TOOLS?

Eu fiz o primeiro capítulo pra um concurso internacional – por isso o sentido de leitura oriental. Como não deu certo, tive a ideia de continuar e publicar online pra evoluir e testar coisas enquanto fazia. Tanto em roteiro quanto em arte.

Como lidou com o sucesso da obra e com o fato de seus fãs apoiarem a história e financiarem uma versão impressa de sua TOOLS?

Foi bem maluco. Eu estava quase parando a série, quando ganhei o concurso nacional da Ação Magazine. Logo depois disso, a obra deu um boost enorme e muita gente pediu o impresso. Foi bem gratificante, mas assustador também, porque comecei a entender que eu já era um “autor”, digamos assim.

Como foi a construção de suas primeiras histórias?

Eu comecei bem crú, apenas usando a inspiração que tinha da minha vida e com base na minha leitura de mangás e outros quadrinhos. Hoje, com certeza tenho bem mais conteúdo e técnica pra trabalhar, mas o mais importante acho que é a motivação e vontade necessária desde o começo. Começar pelos motivos errados pode ser o pior erro de todos, e desde o início eu queria transmitir ideias, me comunicar com as pessoas, e não ficar rico ou famoso.

Na sua opinião, quais autores passam mensagens mais profundas em suas obras, para seus leitores?

Autores como Masami Kurumada (Cavaleiros do Zodíaco, Ring Ni Kakero), Akira Toriyama (Dr. Slump, Dragon Ball), Takehiko Inoue ( Vagabond, Slam Dunk, Real), Naoki Urasawa ( Monster, Pluto, 20th Century Boys), e muitos outros em todas as suas obras sempre tentam transmitir uma mensagem para o seu leitor. Todos, de certa forma, tentam deixar algo para que seu leitor possa refletir, podendo variar entre algo mais simples até algo profundo, sejam elas mensagens de amizade, companheirismo, persistência, lutar pelo que acredita, o comportamento de nossa sociedade e comportamentos desta.

A respeito de obras suas como The Hype, Mondai, Trato Feito, TOOLS, Múltipla Escolha, o que gostaria de dizer para seus leitores com suas histórias?

Acho que cada história tem um significado e um propósito. Às vezes, é só o leitor dar uma risada, outras, tentamos fazer críticas. Mas no geral, a mensagem dos meus mangás são mais ligados a amizade, esforço e superação.

Como conheceu o Silent Manga Audition?

Na segunda edição eu ouvi falar por alto, em algum site ou tweet, ou mesmo no Facebook. Mas não dei muita bola, até porque parecia algo muito impossível pra minha realidade – é, eu já tava ficando meio “velho” e sonhando menos. Depois de um tempo, vi os resultados dessa edição do concurso e o vencedor era um brasileiro. Foi uma bela surpresa. Eu já tinha lido o trabalho do Ichirou como desenhista em uma outra publicação nacional (o Gibi Quântico) mas a obra vencedora do concurso, “Father’s Gift”, me deixou de queixo caído. Aí fiquei com vontade de participar.

Como se preparou para o concurso? Quais foram os maiores desafios?

Participei primeiro do Round 03, em 2015. Não fiquei entre os premiados, e naquela época não divulgavam os finalistas, então nem sei se a obra passou pela primeira triagem. Depois disso, conversei com o Ichirou e recebi feedback de outros amigos, daí fui incorporando as dicas pro meu trabalho seguinte, que foi o Lend a Hand, que ganhou o Grand Prix Runner UP ano passado.

Como recebeu a notícia de que foi um dos vencedores do prêmio? Como reagiu? Se lembra do que fazia no momento em que recebeu a notícia?

Eu estava dormindo nas duas vezes. (risos) Era freela e o fuso dos japoneses é 12 horas adiantado. Primeiro recebi um e-mail que caiu na minha caixa de spam (sério!) falando que eu era finalista. Uma semana depois acordei e acessei o e-mail pelo celular com um convite para ir ao Japão receber o prêmio. Dei um grito silencioso e fechei o punho ainda deitado, depois a primeira coisa que fiz foi ligar pra minha mãe. Eu pensei que ia falar de boa com ela, mas não consegui e fiquei chorando por uns bons minutos huahaha. Ah, é a primeira vez que conto isso publicamente.

Acreditava que poderia vencer o concurso?

Claro que não! (risos) No máximo uma menção honrosa ou algo do tipo era o meu objetivo. E era um baita objetivo, eu ia ficar muito feliz com isso. Dá pra imaginar, com isso como base, pra como eu fiquei em ter ganhado em segundo lugar.

Como foi a viagem para o Japão? Alguma história engraçada e que tenha te marcado durante sua ida?

A viagem foi incrível. Uma experiência pra guardar pra vida toda. Tem muitas histórias, umas que prefiro não contar! (risos) Mas um momento engraçado foi quando eu estava me despedindo do Juan, o chileno vencedor do Grand Prix dessa edição, e como já estávamos muito amigos, demos um forte abraço. O pessoal do hotel ficou sem graça, porque pra eles não é comum abraços públicos, principalmente entre homens.

A ficha já caiu, meses após vencer o concurso?

Não! (risos) Acho que nem a ficha de 2012 que eu ganhei o concurso da Ação Magazine caiu. É estranho… mas eu realmente acho que estou indo longe demais. Quando eu era criança acreditava que faria tudo isso, mas depois que cresci meio que desacreditei. Então não consigo me enxergar como um autor de qualidade fazendo e conquistando as coisas, e sim como um moleque maravilhado com os resultados o tempo todo.

Ter vencido um concurso de cunho mundial, sendo organizado e avaliado por grandes nomes da história do mangá como Tetsuo Hara (desenhista de Hokuto no Ken), Tsukasa Hojo (City Hunter, Angel Hearth), Takehiko Inoue (Vagabond, Slam Dunk) e Nobihiko Horie Ex-editor chefe da revista Shonen Jump, é algo que o emociona e faz acreditar no potencial de seu trabalho? Como se sentiu ao vencer um concurso sob avaliação de pessoas tão consagradas?

Ah, o Inoue não é jurado do concurso. Mas a relação é que ele foi discípulo do Hojo quando mais novo.

Pra mim, ter sido avaliado e premiado por eles é o mais especial do concurso, e o que faz dele grandioso na minha visão. O Horie-san era o editor da maior revista do mundo na melhor fase. Ele comandava a publicação que tinha Dragon Ball, Slam Dunk, Video Girl Ai, Rokudenashi BLUES, Captain Tsubasa, Jojo’s Bizarre Adventure, YuYu Hakusho, Rurouni Kenshin… enfim. Todos os mangás que eu amo e me impulsionaram quando eu era mais novo e todos best sellers entre os quadrinhos mais épicos do mundo. É simplesmente surreal. Quando falo, escrevo sobre isso, acho que eu mesmo estou mentindo.

Te indigna o fato de concursos do gênero e participantes brasileiros serem pouco divulgados na mídia, principalmente pelas editoras que atuam no cenário nacional?

É bem triste. As vezes a tristeza se mistura com um pouco de indignação, com uma raiva também, mas no fim não há nada que possa ser feito além do que já fazemos. Trabalhamos, apresentamos um bom trabalho e divulgamos pra todos eles. Se eles noticiam ou não, já não é da nossa responsabilidade.

É triste porque isso mostra claramente o preconceito contra mangá – principalmente o que fazemos aqui – do mercado de quadrinhos nacional, que se diz inclusivo. A JBC já postou no site Made in Japan, e já comentou sobre o concurso em algum evento, acho importante pelo menos mencionar isso. Mas quanto mais ajuda, melhor.

Acredita haver algum motivo para editoras nacionais não divulgarem sobre concursos como Silent Manga Audition?

Bom, as editoras tem que vender o peixe delas, né? Acho que seria mais interessante tentar entrar em contato com os autores vencedores pra tentar publicar algo. Mas a Draco já faz isso, e outras editoras de pequeno porte estão começando a se ligar que tem muita gente boa fazendo mangá aqui.

Acredita que as editoras nacionais subestimam o talento dos artistas brasileiros?

Acredito que sim, mas lembro que estou falando especificamente da esfera do mangá. O artista nacional é desvalorizado no geral, mas nós que puxamos pra influência oriental normalmente somos vistos como autores de subquadrinho ou algo assim. Estamos perfurando essa barreira muito lentamente ao longo dos anos.

Observando o trabalho de outros colegas e artistas nacionais, além daqueles que almejam participar do Silent Manga Audition, enxerga um grande potencial em suas histórias e arte?

Claro! Inclusive considero vários bem melhores do que eu! (risos) Temos o Kaji Pato, o Rafa Santos e o Wagner Elias, Daniel Bretas, Ricardo Mango, Guilherme Petreca, Studio Seasons, Juliana Loyola, Marcel Ibaldo, João Eddie, Fabiano Ferreira, João Mausson… enfim. Uma infinidade de excelentes autores que participam, tem interesse ou só tem influência do mangá nas obras mesmo, que poderiam claramente figurar a lista de vencedores.

As editoras nacionais investem muito em obras internacionais de sucesso, o que não acontece no Brasil, além da Editora Nebulosa, Editora Draco e o concurso Brazil Mangá Awards. Você acha que exista algum preconceito por parte das editoras, com relação a obras nacionais?

Como eu disse antes, existe. Mas além disso, tem que ver o lado mercadológico, as estratégias das empresas. Não é fácil investir assim em algo sem retorno garantido. Aos poucos isso está mudando e acredito que em 10 anos esse papo estará bem atrasado.

Juntamente com outros artistas que venceram o prêmio do Silent Mangá Audition, você criou uma página no Facebook especialmente voltada para artistas interessados em participar do concurso. Como surgiu essa ideia?

O Roberto Fernandes que foi o idealizador. Eu só ajudo com a organização e alguns pitacos agora que faço parte da Master Class. A ideia dele foi de fato ajudar e criar um canal de ensino e motivação pra todo mundo que quer participar do concurso. Lá, damos dicas objetivas sobre o concurso facilitando e aumentando a possibilidade de vitória de todo mundo.

Quais seus objetivos para o futuro?

Por enquanto, conseguir aprovar alguma coisa com os japoneses (risos) e continuar o Tools Challenge até o final da série no mercado nacional. Está quase 100% certo que serão 6 volumes ao todo, até o final de 2018. Nesse momento, espero já estar lançando uma série no Japão. Mas com certeza é o meu objetivo mais difícil até o momento.

Como esta é a última pergunta, primeiramente gostaria de agradecer por disponibilizar seu tempo nesta entrevista e gostaria de dar os parabéns por vencer o concurso. Há algo que gostaria de dizer algo à todos os jovens aspirantes e aqueles que sonham em fazer quadrinhos?

Agradeço pelo espaço, e agradeço também todos os leitores que gostam do meu trabalho. Quadrinhos só fazem sentido se as pessoas leem. Pra todos que sonham com isso e estão se esforçando, dou uma dica impopular que aprendi com meu amigo Rafa Santos: desistam.

Se isso for pra você mesmo, você vai voltar de qualquer jeito, e vai continuar fazendo pra sempre independente dos resultados.

 

Com o sucesso em seus trabalhos e com as portas do mercado internacional abertas, além de muita vontade de continuar produzindo para o Brasil, o autor inicia uma campanha de financiamento colaborativo para optimizar tempo e recursos de produção.
O projeto tem intuito inicial de durar no máximo dois anos, e os colaboradores terão acesso a conteúdos exclusivos, sorteios, descontos e diário de produção do autor, acompanhando todo o processo de aprovação no Brasil e no Japão, com detalhes sobre processo de produção e avaliação nos dois cenários.
A contribuição pode ser feita com R$1,00 ou mais e pode ser editada e cancelada a qualquer momento.
Para saber mais e apoiar: https://apoia.se/puffnopiripaf

Além de proporcionar o melhor conteúdo, o Geekable procura também mostrar os talentos da casa, para lembrar nossos leitores que, por mais estranho que pareça falar, existem muitos artistas no Brasil com grande talento, produzindo grandes trabalhos e vencendo concursos internacionais.